Ficando cansado em 30 segundos


“Olha, mãe! Um  S de salchicha!”

 

      Há uns 30 anos, assistir TV era sinônimo de aconchego, relaxamento. A maioria dos comerciais era rodada em velocidade normal. Lembram-se dos antigos comerciais de margarina, café, biscoitos, comida em geral?
Há um tempo, na minha constante fome por coisas que me lembrassem dos tempos que era fácil ser feliz, acabei encontrando no Youtube uma seleção de comerciais de 1982. (na verdade, tudo que eu tenho procurado no Youtube ultimamente são coisas desse tipo-isso e pornografia, evidentemente ;D)

Dois comerciais em particular me chamaram muito a atenção. Quem está ultrapassando os 25 anos como eu, deve se lembrar. Era um comercial de Doriana feito em stop-motion. Nele, o pote de margarina acorda num bocejo, e logo fatias de pão, bolo, bolachas cream-cracker e torradas começam a cantar um jingle declarando seu amor à margarina, que dá risadinhas e saltita freneticamente. O tipo de comercial milimetricamente calculado pra garantir que nenhuma alma viva fique sem sorrir no final.
Sem Título-2
Duas coisas me chamaram a atenção nesse comercial: Uma, foi a animação, lógico. Afinal, sou um animador em treinamento. A outra, foi a sua simplicidade. São 50 segundos que ninguém quer que terminem, e tudo sem ninguém pulando de bungee-jump, soltando pipa numa tempestade ou descendo as cataratas do Iguaçu num bote salva-vidas.

            Outra bem mais simples do mesmo ano. Numa cozinha, mãe e filho brincam de escrever letras do alfabeto usando salsichas. Só podemos ver as mãos deles. A de Amor, I de Ispecial -prontamente corrigido pela mãe: Ispecial é com Ê… D de Deliciosa, A de A mais gostosa (?), e no final ela põe uma salsicha que toma magicamente a forma de um S – Aí vem a frase com a qual comecei a crônica. SADIA. E mais sorrisos do outro lado da tela à vista. Na maioria das vezes, MENOS é MAIS.
Sem Título-1
   Isso me fez pensar: O que aconteceu com o espírito acolhedor da publicidade de antigamente? Noutros tempos, não existia essa urgência por velocidade, essa sede de emoção, e os produtos se vendiam mesmo assim. Para os mais novos. Noutros tempos, os comerciais de Coca-cola eram mais familiares. Retratavam momentos de prazer com pais, avós e filhos passeando no bosque, nadando na piscina, atirando o disco pro cachorro buscar, pessoas tocando violão debaixo de uma árvore. Refrigerante costumava ser sinônimo de pausa na correria do cotidiano – inclusive, um dos primeiros slogans da Coca-cola foi “A pausa que refresca”. Comerciais de cerveja seguiam quase a mesma fórmula. Todos se sentavam à mesa do bar, o garçom abria a garrafa, todos observavam atônitos a espuma subindo pelo gargalo… Havia toda uma necessidade de criar laços com o consumidor, de educa- lo a exigir sempre a mesma marca.

            Mas hoje, parece que os publicitários pararam de se importar com o essencial: conosco. A reestruturação começou já no fim dos anos 80/início dos 90. Agora todos aparecem andando de carro importado, surfando, fazendo para-glider, esqui aquático, nadando numa piscina olímpica…Em suma, fazendo sempre algo melhor que o telespectador, tudo com velocidade vertiginosa. Eles pensam que os consumidores fazem essa associação “ Cara, olha só pra mim, eu sou uma verdadeira lesma! Se eu tomar esse refrigerante, se eu tomar essa cerveja, se eu usar esse absorvente, se eu usar esse desodorante, vou poder fazer tudo que essa gente tá fazendo, ou ainda melhor que eles”. Mas aí você abre a latinha em casa e… Cadê?

Engraçado, né? Nos tempos que a Nair Bello era virgem, não era necessário mostrar ninguém levando o melhor nas propagandas. Todas as pessoas eram comuns. As idéias costumavam ser mais simples, porém efetivas. Até os sorrisos e gestos pareciam menos falsos que os de hoje- a exceção dos primórdios da publicidade nos anos 50, onde as propagandas eram todas ao vivo e absurdamente artificiais.

Nossa publicidade se transformou numa corrida de Formula 1. Educar o consumidor se tornou um mero detalhe. A concorrência é tão grande, os comerciais são lançados de uma forma tão agressiva que nós acabamos nos sentindo sufocados pela propaganda. É como se eles amarrassem os comerciais em pás e nos dessem uma surra com eles. “COMPRE! COMPRE! COMPRE! COMPRE! COMPRE!”

Dá um tempo, tá legal? Eu não quero ficar cansado assistindo 3 minutos de intervalo, eu quero relaxar depois de um dia … Hee, hee,hee… Longo de… Heehahahahah! De trabalho! Desculpem-me, mas não consegui resistir à piada…

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2 Respostas

  1. Lembro-me com saudades de um comercial de brinquedo que eu adorava. Tratava-se de uma conversa de uma menina com uma flor que virava boneca e vice-versa. Na realidade era quase um monológo já que a boneca-flor não respondia, apenas abanava a cabeça enquanto a menina falava. Era mais ou menos assim: – Bom dia, menina flor, dormiu bem? Agora eu vou pra escola, você quer ir para a escola comigo?Humm…. mas não pode levar boneca pra escola… Bom, boneca não pode, mas flor pode!!!!!!!!

  2. Muito bom. Caiu feito uma chuva no seco. Ideias novas para um tema altamente atual: o comercial nosso da cada dia. Mesmo para mim que tenho fama de ser imune a todo e qualquer comercial.

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