Um sonho que eu tive…


Aquele dia em nada lembrou o cotidiano. Os carros não saíram da garagem, os ônibus e caminhões não trafegaram pelas avenidas. Ninguém trabalhou, nenhuma engrenagem que move o país se movimentou. Não. Tudo o que ouvíamos eram passos. Uma marcha, a maior talvez da história da humanidade. Em cada cidade, cada estado, cada fazenda, todas as pessoas saíram de suas casas, de seus afazeres e se puseram a caminhar.
O som dos passos era tão alto que ecoava nas montanhas e fazia o chão tremer. Todos nós. Homens e mulheres. Crianças, adolescentes, adultos e idosos. Pedreiros e economistas, mendigos e empresários, religiosos e ateus, pudicos e tarados, acanhados e exibicionistas, policiais e traficantes, corintianos e palmeirenses, flamenguistas e vascaínos, Galo e Raposa. Yin e Yang.

 
Nesse dia, todas as barreiras que amamos depositar diante de nós caíram por terra. Todos os corações brasileiros tornaram- se um só. Continuávamos marchando e marchando, como se todos tivéssemos ensaiado a vida inteira para esse momento. Marchando e marchando. Nenhum obstáculo ousava se opor a nós. Bolhas nos pés não eram nada. A distância não importava. Fome, sede, frio, calor e mortes no caminho logo eram superadas. Cada brasileiro sabia que estava fazendo parte de uma coisa muito especial. Todos andávamos como zumbis, enxergando nosso objetivo cada vez mais adiante.

 
Céu sem nuvens, esculturas estranhas por toda parte, edifícios futuristas de gosto duvidoso, o ar seco perfurando nossas gargantas. Enfim, todas as pessoas do país haviam atingido seu objetivo: O centro do país. O lugar onde o drinque era misturado. Onde gente da pior espécie brinca com nossos destinos como fichas numa mesa de pôquer. O primeiro berro foi ouvido do fundo da majestosa fila.
– QUEREMOS O QUE É NOSSO!

 
A comoção foi geral. Ouviu-se a maior vaia já registrada em decibéis na história do mundo. Puderam nos ouvir de pólo a pólo no mundo. Logo, gritos e cantigas ufanistas foram ganhando coro na massa de pessoas. Ergueram os primeiros cartazes reprovadores. FORA! NÃO QUEREMOS MAIS SABER DE VOCÊS! SEU TEMPO JÁ PASSOU!- era o que diziam.
Forcas improvisadas circulavam sobre nossas cabeças como astros de rock pulando na galera. Veio uma lágrima no rosto de cada um de nós quando ergueram a primeira tocha e o primeiro pedaço de pau. Os homens da lei nada podiam fazer contra 190 milhões de pessoas. Todos estavam ao redor do palácio, tremendo de medo de nós, tentando dar cobertura para o mandatário maior da nação. Todos os políticos que arriscavam uma negociação recebiam o que mereciam.

 
Os seguranças ao redor do palácio nada mais podiam fazer para conter a multidão. A manifestação havia, enfim, se transformado em uma guerra. Todos aplaudimos quando o primeiro de nós conseguiu romper a barreira humana e invadir o palácio.
– Venha, nosso rei! Venha receber um abraço caloroso de seu povo!
Todos arremessaram tijolos e pedras contra as vidraças. Um arremessou a forca sobre o lago para servir de ponte. Não existia mais nada entre o povo e seu país. O homem não podia mais escapar de seu destino. Interditamos todas as escadas e elevadores. Ele se tranca em seu gabinete. Mas o que é uma porta entre milhões e um só homem? Assim que conseguimos arrombar a porta, ele abriu a janela e ameaçou se jogar do vigésimo andar…

Aí eu acordei.

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3 Respostas

  1. “qualquer forma de poder/nós vamos derrubar/e das cinzas construir/a ausência de poder/onde todos vão poder/viver em paz”

  2. O surradíssimo ” a união faz a força” ainda conta muito, embora no Irã vimos ser essa união sufocada a tiros e muito sangue. Não podemos deixar de opinar, manifestar indignação e ir riscando da lista os maus políticos e porque não, também os mal eleitores. Repito, mais falsos do que os políticos só mesmo o eleitor. Vamos mudar gente!

  3. Gostei muito do seu texto, eles são ricos em detalhes.^^

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