A realidade DÓI! (Parte 1)


Essa é a primeira crônica separada em Lado A e Lado B. A próxima parte vem na Sexta- Feira, OK?

No fundo, todos nós temos um lado sombrio. Não resistimos a uma dose de desgraça alheia. Ver alguém dar com a testa num poste, tomar um tropeção na escada, escorregar numa casca de banana ou tomar um soco na cara é um deleite pra qualquer pessoa, porque geralmente pensamos “ainda bem que não foi comigo”. Sempre que tem um acidente de trânsito, fazemos rodinha pra vermos o que aconteceu, não por sermos prestativos, mas porque, nos cafundós de nossas almas, todos gostamos de sentir cheiro de sangue.

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            Quando não existia televisão, qual era a grande diversão do povo? No velho oeste, enforcamentos eram sempre procedidos de fanfarra e festa – quer dizer, pelo menos nos faroestes era assim. Nos tempos do Rei Artur, havia os campos de honra, onde a regra era um cavaleiro esmagar a armadura do outro até matar. Na Roma antiga, o Coliseu lotava pra ver escravos se despedaçarem e/ou serem despedaçados por tigres e leões- e tinham até cambistas pros combates de gladiadores.

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            O senso de cumplicidade e a prática do voyeurismo fazem parte do DNA da humanidade. Gostamos de assistir pessoas se auto-humilhando e fingindo ser algo que não são, e sentimos alívio por não sermos nós os alvos. Assim se explica o sucesso dos Reality Shows nos últimos 20 anos.

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            Sim, 20 anos. Pode parecer que não, mas somos vítimas desse tipo de programa desde os anos 90. O primeiro Reality Show da televisão foi o Real World, lançado pela MTV americana em 1992. A proposta do programa era simples: fechar por um mês numa casa uma dúzia de adolescentes anônimos beberrões e desmedidos com a libido à flor da pele e ver a merda que ia dar. Surpreendentemente, a fórmula deu tão certo que o programa já tem quase 20 anos de edições ininterruptas.

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            No Brasil, acredito que essa mania começou com o finado Você Decide, da Globo. Apesar de serem historinhas fictícias, sempre tinham um pé na realidade e éramos nós quem decidíamos como tudo ia acabar. Já imaginaram quantos finais a emissora gravou e que não foram escolhidos? Essas fitas devem valer uma fortuna no Mercadolivre… Só de lembrar o Antônio Fagundes pagando uma de Lex Luthor no programa com a cabeça raspada me dá náuseas…

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            Daí em diante, a coisa desembestou. Atualmente, de cada 10 programas na TV, sete são Reality Shows, mas, ironicamente, nenhum deles tem algo a ver com o mundo real. A começar pelo mais popular no Brasil, o Big Brother. Até hoje não consegui entender qual é a graça de ver uma dúzia de anônimos morando numa casa de mentira por um três meses, sem TV, celular ou qualquer contato com o mundo exterior. Tudo que eles fazem é ficar de bobeira o tamanho que é o dia, fazer amor uns com os outros numa hora e noutra se espancarem. E Pedro Bial ainda tem a cara de pau de chamar essa gente de “nossos guerreiros, nossos heróis”… Dá um tempo! Heróis por quê? Eles salvaram alguém de um prédio em chamas? Livraram o país de políticos corruptos? Mudaram o nome de 8 e Meia no Cinema de volta pra Sessão das Dez? Poxa, se esse é o conceito moderno de “herói”, então todos nós somos heróis!

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Apesar de ser uma besteira sem tamanho, o programa sempre vai parar em todas as bocas, talvez por ele ser um reflexo do que a sociedade brasileira acabou se tornando. Na roda de colegas no recreio não dava outra. Além de tecnologia e informática- afinal, somos nerds!-, o tema recorrente da discussão era quem deu pra quem, quem ficou, quem saiu, quem passou o dia todo com uma samba-canção na cabeça , e por aí vai. Já perdi a conta do número de vezes que ouvi abobrinhas do tipo “nunca tinha sentido tanto orgulho de mim como quando telefonei pra eliminar tal participante”. Essa é outra palavra que nunca falta em nenhum Reality do gênero “bando de desocupados fazendo nada numa casa falsa”. Eliminar. Esse é o momento dos telespectadores demonstrarem seu sadismo. É como dizer “Eu sou Deus e não vou com a cara de vocês, quero todo mundo ralando peito nesse instante! Vaza!”. A pessoa se sente toda poderosa por ter contribuído para fazer da casa de mentira um lugar melhor para se viver para os outros anônimos descerebrados lá dentro. Ele é também o único programa do mundo onde os perdedores recebem mais atenção que os vencedores. Assim que são chutados pra fora da casa de mentira, já tem um tsunami de contratos milionários caindo em suas cabeças. Ei, alguém aí já viu uma Playboy lançada nos últimos 10 anos SEM uma ex- BBB na capa?

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4 Respostas

  1. Para não perdermos o costume da vigilância constante arrumamos em casa a webcam. Enquanto estamos aqui no micro ela vai nos vigiando.

  2. E depois 1984 era só ficção…

  3. Acho que meu DNA é mutante: não tenho prazer, nem curiosidade de assistir a esses programas, nem parar para ver acidentes.

  4. É uma questão de consciência; você pode sentir prazer com o sofrimento alheio ou com a alegria alheia e, almejar o mesmo para si e para outros.
    Depois desta afirmação, é fácil fazer uma escolha.
    Agora porque não estendemos para os outros a nossa resposta. Querer o bem é um treino onde fortalecemos nossa capacidade de empatia.

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