Isso é coisa de…


Não raras são as ocasiões em que, enquanto tento coordenar as idéias para alguma crônica, fico pensando “será que essa frase vai comprometer minha masculinidade?”, “o que eles vão pensar de mim depois de ler isso?”. Eu sei que o que mantém um blogueiro são as opiniões que as pessoas têm sobre as suas, mas eu tenho um defeito grave: não consigo lidar bem com uma crítica negativa. Talvez não devesse me importar com esse tipo de coisa, mas é quase inevitável me preocupar com minha imagem em meio a essa sociedade machista e preconceituosa. Minha mãe nunca me ensinou nenhum preconceito, mas o mundo ao meu redor me moldou à sua imagem e semelhança.
A pergunta pode parecer sem cabimento à primeira leitura, mas conseguem imaginar aonde o mundo teria chegado se não existissem as generalizações e os estereótipos? Mais que o dinheiro e o sexo, o preconceito é a mola mestra da sociedade. Não existe pessoa que não seja preconceituosa. Diariamente, somos bombardeados com toda a classe inimaginável de discriminações e piadinhas de mau gosto. Vai dos clássicos como “mulher não sabe dirigir”, ”baiano só sabe dormir e pular atrás do trio elétrico” e “mineiro é desconfiado de tudo e só come queijo e couve” a coisas escabrosas como “negros só se chamam uns aos outros de irmãos porque nenhum conhece o próprio pai.”

douchebag

Qualquer cara que já conheci ,desde o minuto que nasceu , passou por um curso intensivo de macheza e espírito de porco com o pai, com duração de 25 anos. Ficou registrado em nosso subconsciente que homem pra ser homem tem de falar gritando, cuspir no chão, matar em nome do time de futebol, adorar cachaça e idolatrar cerveja, curtir uma boa porrada, limpar a boca na manga da camisa, feder muito, coçar o saco, conseguir peidar e arrotar as letras do alfabeto e sentir orgulho do número de mulheres que já comeu. Se por um acaso faltar um desses itens no inventário, você é gay.

20080908-guido

E que todo gay gosta de música romântica, comida “étnica” e macrobiótica, roupa florida e/ou de cores gritantes e musicais da Broadway. Tem de ser magro, solteiro e sem um único amassado na roupa. Se é gordo, casado e largado, gosta de ouvir Cannibal Corpse e dos filmes do Schwarzenegger, trate de largar a mão desse cara aí.

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Antes de o Obama aparecer, ser negro era sinônimo de ser pobre, ladrão, pagodeiro, jogador de futebol ou maratonista – devido à força dos quenianos. Negro americano só podia ser porteiro, motorista de ônibus, traficante, jogador de praticamente todos os esportes e rapper tarado. Se por ventura você fosse negro e tivesse se tornado um médico, um advogado ou um cientista, logo o tachariam de “traidor do movimento” e o desprezariam.

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Graças à Hollywood, boa parte dessas generalizações foram passadas de geração a geração. Os filmes nos ensinaram que todo sul- americano é feio, pobre e mora em barracos empilhados num barranco com vista paradisíaca, todo mexicano é neurótico, mulherengo e dorminhoco, todo francês é mal- educado e não gosta de tomar banho, todo chinês sabe lutar kung- fu, todo italiano é esquentado e trabalha pra Máfia, todo negro americano é barulhento, maconheiro, só se tratam uns aos outros como muthafucka e biatch, vende crack e canta hip- hop.

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Mais que aprender tudo isso, acabamos perpetuando esses preconceitos. Com os filmes pornôs, aprendemos que a primeira transa tem que ser com um mulherão, e que toda gostosa é boa de cama.

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Se as pessoas quisessem mesmo mudar o mundo, teriam acabado com essas generalizações, ao invés de abraçar todos esses estereótipos horrorosos e continuar metralhando – os ad nauseum, como continuamos fazendo. Assim como as cidades e o custo de vida, o culto ao preconceito só cresce… embora na superfície façamos o jogo do politicamente correto.

 blackface

 Um recado: A partir de agora, as atualizações virão de dois em dois dias, e em “doses homeopáticas”, por assim dizer.

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6 Respostas

  1. É demonstração de coragem de sobra mexer nesse vespeiro. Mesmo para enumerar preconceitos é preciso ter controle na mão, para não errar na dose. E você acertou. Deu uma bela cutucada em cada um de nós e se saiu bem demais. Parabéns!

  2. Muito boa crônica.
    Bem escrita e elaborada.
    Inteligente admitir que não convive
    bem com as críticas negativas.
    É um passo para ” corrigir” o que
    vc acha ” defeito”.
    Na verdade é normal. Vaidade humana.
    Quem não tem lá suas vaidades ?
    Quanto ao preconceito…
    vai existir sempre.
    Também é da natureza humana.
    Se eu disser que não tenho preconceito, que cada um
    vive a vida como bem entender, você vai acreditar ? risos.
    Eu acho que o mundo NÃO vai mudar, enquanto cada um não se mudar.
    Se conseguirmos nos tornar ” pessoas um pouquinho melhores” já é um avanço. Individualmente. Cada cabeça, uma sentença, uma vivência, experiência , maneira de enxergar o mundo. Ninguém pensa igual. Não tem como mudar ” GERAL”.
    Mude-se. E o mundo vai mudar pra você.
    Beijos

  3. Olha, essa coisa de “eliminar os preconceitos” é uma abstração humana, tanto quanto os exemplos supracitados.
    Trata-se de um instinto humano, o “preconceito”. Tudo bem, muitos são sem fundamento nenhum… Mas isso também é resultado da “urbanização” da humanidade.
    As pessoas em geral pensam que são muto racionais (enquanto espécie, não enquanto indivíduo), mas na verdade o ser humano É regido por seus instintos.

  4. A cada dia, continuam a marretar esses “valores” nas cabecinhas dessa geração de 2000 pra cá. Se quando crescerem, os garotinhos/garotinhas virarem um bando de cordeirinhos, não foi culpa nossa: teve gente que quis tirar parentes dessa (meu caso).

  5. gostei do seu texto, mas, cara, blog é pra ser descontraído e pra você não ter que ficar se preocupando com ‘o que vão achar do que escrevi’. você não precisa medir palavras, apenas ser quem você é.

    a propósito, que tal deixar os comentários em pop-up? leio suas postagens e tenho que ficar indo e vindo para comentar, entre a página de comentários e a página principal. já pensou que pode ter gente que desiste de comentar por causa disso? fica a dica.

    • como se faz isso?

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