Quem matou quem?


Ser brasileiro e nunca ter nem ouvido falar em novelas é quase como visitar as cataratas do Niagara e não querer desce- las dentro de um barril.
Acreditem se quiserem, mas eu, como todos vocês, também já tive minha época de noveleiro. Foi bem curta, mas aconteceu. Como quase toda criança da minha idade, minha iniciação foi com a hedionda novelinha Carrossel. Apesar de bem bobinha e cheia de coisas absolutamente inverossímeis como ricos generosos com os pobres e carpinteiros que ganham na loteria, era bem cativante. Depois dela -e eu sou macho o bastante para admitir- assisti à Maria Mercedes, Marimar e Maria do Bairro, todas com a Thalia. Por mais horroroso que fosse aquele dramalhão exagerado e por piores que fossem as dublagens, vibrei quando as vilãs das três novelas morreram, como qualquer pessoa que as acompanhou.
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Ao longo da década passada, eu passava as noites de sexta-feira na casa da minha avó. A unanimidade era que ninguém podia falar uma palavra durante a novela “das oito”, mudar de canal então, nem se fala. Já que não tinha outro remédio, acabava vendo junto com vó e dona Dú, sua empregada de longa data e fiel escudeira, aos folhetins, já que ir pra cama às 9 da noite ainda está totalmente fora de questão. Assim, acabei me acostumando aos rostos de Lima Duarte, José Wilker, Antônio Fagundes, Regina Duarte, Patrícia Pillar, Cláudia Raia, Luiza Tomé e vários outros astros globais.
Cheguei a acompanhar uma meia dúzia de novelas completas por causa dessa “alimentação forçada”. Assisti a diamantes da teledramaturgia como Pedra sobre pedra, Renascer, O rei do gado, A próxima vítima, O fim do mundo e A indomada de cabo a rabo, sem perder um único capítulo. Essas novelas foram primorosas, verdadeiros marcos da TV brasileira-OK, talvez A indomada nem tanto assim…
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Nos últimos 40 anos, temos sido bombardeados com uns seis folhetins globais diferentes ao ano. Nos anos 70 Boni criou o formato “novelas das 6,7 e 8”. Os anos 80 trouxeram a consagração absoluta das
produções globais.
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Feitos históricos como Roque Santeiro marcando 100% de Ibope no último capítulo, Que rei sou eu?, novela escrachada passada na França medieval que ao seu modo inspirou o povo a votar em Collor nas eleições de 89, e o clássico “quem matou Odete Roitman?” marcaram para sempre o universo televisivo brasileiro.
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Porém, houve certa estagnação de idéias inovadoras no início do século XXI, que continua até hoje. Depois que boa parte dos grandes dramaturgos como Cassiano Gabus Mendes, Ivani Ribeiro, Janete Clair, Dias Gomes e o patrão deles, Dr. Roberto Marinho, morreram, todas as tramas da emissora entraram em queda-livre, que até agora não dá sinais de que vá acabar, com as novelas das 9 precisando penar muito pra conseguir míseros 36 pontos de audiência diários.
Todo mundo reclama dos elencos das novelas da Televisa, que nunca mudam, mas as novelas globais também não rendem homenagens. Quantas vezes eles já nos empurraram José Mayer como garanhão incurável, ou Ari Fontoura como a face da desonestidade, ou Renata Sorrah como prostituta/cafetina classe A que continua em alta rotatividade mesmo depois dos 50, ou Fernanda Montenegro como vilã ambiciosa e avarenta, que só quer saber de dinheiro, não importam os meios de consegui- lo?
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Outra coisa que não faz nenhum sentido é a maioria das vilãs e mocinhas carregarem sempre uma .22 dentro da bolsa e nunca serem barradas pelo detector de metais do aeroporto. E como é que essas mulheres, que aparentemente nunca tiveram treinamento profissional, conseguem matar até com um tiro no lobo da orelha?
Vocês querem saber o que os roteiristas que sobraram deveriam fazer para as novelas voltarem ao topo da cadeia alimentar? Dar uns tiros no escuro bem absurdos. Por que toda novela tem sempre que acabar em casamento? Que final feliz, o quê? Todo mundo já enjoou dessa lenga-lenga.
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Imagina o impacto que causaria se, depois dos créditos finais, aparecesse uma cena do casalzinho, acordando depois da primeira noite de lua- de- mel e a mulher dizendo “Eu quero o divórcio”? Calculem o bafafá no dia seguinte, e a possibilidade de uma continuação que o final deixaria.
Mais uma idéia: O avião levando os pombinhos cai no mar na última cena. Quando terminam os créditos finais, há um funeral simbólico. No cemitério já vazio, a grande vilã da vez aparece e começa a dançar em cima das lápides como uma desvairada, então um atirador misterioso, escondido atrás de uma árvore, dá cabo dela, que cai de pés juntos em cima do túmulo de sua desavença. Esse sim, seria um final que daria o que falar, mesmo que a novela tivesse sido uma merda.

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Uma resposta

  1. Todos nós tivemos ou ainda temos, embora custemos a admitir-tudo bem, você fez isso-, nosso período de “noveleiros”. Como larguei a TV há 10 anos, as novelas ficaram para trás bem antes disso. Agora, no Jornalismo, faço o caminho de volta, e as novelas têm uma importância social muito grande. Ainda assim, vivam as ressalvas.

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