Última Fila


Frost/Nixon(2008)

“Quando um presidente faz algo, isso significa que NÃO É ILEGAL!”

Baixar filmes pela internet tem suas desvantagens. Tirando a polícia que dizem que vem prender a gente, na maioria das vezes os lançamentos saem em DVD antes que tenhamos conseguido baixar os filmes até a metade. Com esse filme maravilhoso, que mereceu todas as indicações ao Oscar desse ano, o caso foi exatamente esse. Comecei a baixar Frost/Nixon em Janeiro, e até ontem ele não tinha passado dos 40%. Foi quando eu vi o pôster dele na locadora.
Mas o que esse filme tem de tão especial? Primeiro uma liçãozinha de história. Em 1974, o então presidente dos Estados Unidos, Richard Nixon, foi pego com as calças na mão no escândalo do Watergate, em que ele havia mandado instalar escutas e gravadores na sede do Partido Democrata nas eleições de 1972, para que ele pudesse saber tudo o que o outro candidato perguntaria no debate, e responder tudo em cima da bucha. Isso evidentemente deu um rolo dos bravos, e para fugir do processo de impeachment, ele escolheu renunciar o mandato. Hummmm, quem isso nos lembra?
Todos os americanos sentiram- se enojados pelo episódio, afinal eles sempre tiveram o hábito de endeusar boa parte de seus presidentes, e esperavam que Nixon pelo menos se desculpasse com a nação. Porém, o país foi pego de surpresa quando o seu vice, que assumiu o gabinete após a renúncia, anistiou o ex- presidente com papel passado, para que ele não perdesse seus direitos políticos.


Três anos depois, o apresentador de talk- show e comediante britânico David Frost conseguiu um contrato de mais de meio milhão de dólares com Nixon, para uma entrevista que levaria uma semana, onde ele teve a chance de fazer o ex- presidente admitir que falhou com seu povo. Tal entrevista começou de forma bem mansa, mas conforme os dias iam passando, David ficou progressivamente mais íntimo e atrevido, até conseguir quebrar o espírito de Nixon e arrancar de sua boca aquilo que o mundo todo queria ouvir. Foi um marco em termos jornalísticos, e foi o trabalho que imortalizou tanto Frost como o ex-presidente, tendo inspirado repórteres investigativos em todo o globo e a feitura de uma peça de teatro baseada na entrevista.
Peter Morgan, o escritor da peça, também assina a adaptação do roteiro desse filme, comandado por Ron Howard, trazendo Frank Langella, o Esqueleto do filme do He-Man, no papel de Nixon – que ele já interpretava na peça homônima – e Michael Sheen no papel do sortudo entrevistador.
Howard geralmente se sai melhor dirigindo filmes menos comerciais como Uma mente brilhante e Luta pela esperança do que com arrasa – quarteirões pretensiosos como as adaptações dos romances de Dan Brown. Esse filme não é exceção.

(Nixon verdadeiro)
Metade do filme é dedicada à corrida de Frost para conseguir o financiamento da entrevista e convencer Nixon a concedê-la. A outra metade, quase toda, é a entrevista propriamente dita. Assim como o já clássico Der Untergang, que relata as últimas semanas de vida de Hitler, Frost/Nixon se aproveita do sentimento de claustrofobia da sala onde a entrevista foi feita, e do desenrolar lento da história para extrair o melhor de cada ator envolvido, e apesar de Langella não se assemelhar fisicamente em nada ao ex- presidente, consegue convencer a todos nós de que ele é o homem.

Por favor, me perdoem, mas não consigo falar desse filme sem entregar seu final. Quando enfim admite ter decepcionado a todos que contavam com ele, ele faz a cara mais estarrecedora, humana e deprimente que nenhum outro ator- talvez nem o próprio Nixon- jamais conseguira fazer. Eu sei que é apenas um ator, mas chego a invejar a nobreza e a dignidade do personagem e sua contraparte no mundo real. A expressão facial dele praticamente diz “minha carreira acabou”.

Fico imaginando o porquê desse tipo de comportamento faltar em nossos políticos, afinal nós depositamos nossa confiança neles, mas nunca deixam de escapar pela tangente, com um sorrisão bem falso, e dinheiro saindo pelo canto dos olhos. Todos nós adoraríamos ver, por exemplo, Fernando Collor em tal momento de serenidade, deixando o palácio da alvorada cabisbaixo ao admitir seus crimes, em vez de sua famosa pose arrogante do tempo de sua renúncia, e esbravejando em sua entrevista à Globo em 97. Afinal, é tão difícil assim dizer “Eu errei”?
Resumindo, assistam a esse filme. Garanto que ninguém se arrependerá.

NOTA:9,5

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2 Respostas

  1. Mesmo já conhecendo o final fiquei bastante interessada em assistir este filme. Grande dica, Fernando!

  2. O Langella ainda tá vivo?

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