Desperdício de perfeição?


Os sábios sempre duvidam das coisas, é o que dizem. Desde que eu comecei a desenhar com mais seriedade, há dez anos (direto do Túnel do Tempo, como diria a Ceribelli…) entrei num tipo de círculo vicioso: modificar minhas criações de maneira compulsiva.

Pode parecer papo típico de hiperativos, mas eu nunca estou 100% satisfeito com minhas criações. Assim que termino de fazer, noto alguma imperfeição, minúscula ou gigantesca. Não importa o tamanho, volto à prancheta. Só o Aurion já teve umas sete versões diferentes, e (para os que ainda se lembram) a Recken, minha eterna musa, já fez mais plásticas do que Michael Jackson.

Dizem que Leonardo da Vinci, outro hiperativo e canhoto como eu, nunca deixou nenhuma obra completa para a posteridade, pois constantemente voltava aos projetos antigos quando a bala da inspiração disparava. Os mais normais chamariam nosso problema de indecisão crônica. Talvez. Acreditem se quiserem, mas essa constante busca pela perfeição das minhas criações já me custou algumas amizades.

É comum no meu universo (de nerd viciado em cultura inútil e que nunca vai ser ninguém), um desenhista homenagear o outro desenhando um personagem daquele. Mas minha busca pelos personagens perfeitos causa uma confusão tão grande na cabeça dos colegas, que eles nunca sabem qual é a versão que tá valendo. Isso irrita profundamente os carinhas mais sensíveis.

Eles não entendem que pra mim um desenho não é simplesmente um desenho. Se eu tenho um desenho novo a apresentar, é porque ele me parece especial. Não vou postar uma garratuja qualquer, simplesmente pra pesar o carregamento da página. Através dessas mudanças compulsivas de detalhes dos personagens é que pude me aperfeiçoar como designer ou, por que não? Como artista. Talvez por esse probleminha, eu até hoje me pergunto se eu escolhi a faculdade certa. Não há espaço para perfeição quando se tem um prazo arrochado para entregar o produto.

Cara, se esse texto não tiver queimado meu filme com os machos de plantão, eu não entendo nada de blogs…

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2 Respostas

  1. Sim, os machos devem achar uma frescura sem limites essa idealização da perfeição, já que ela nem sonha de existir. Mas ler essas considerações é diversão na certa.

  2. Pelo menos nas suas criações, elas não têm prazo de entrega (isso fode com a capacidade criativa de todo mundo).

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