Mandou bem, cara!


Lembrei-me agora da minha formatura. Não que eu tenha feito por merecer o “canudo” ou sido um aluno exemplar, mas a cerimônia foi marcante, apesar de ser igual a todas as outras. Revejo os meus colegas e eu vestindo capelos e becas, imaginando quantas bundas mal-lavadas já os usaram. Na fila para entrar no auditório, enquanto os alunos atrasados vestiam os trajes no corredor, o tema do duelo final de Era uma vez no Oeste flutuava em minha mente. Havia decorado a cena do filme e ensaiado minha expressão facial de profissional sério a semana inteira, e, sendo aquela minha última chance de demonstrar seriedade em minha carreira acadêmica, pensei que nada me faria sorrir.

            Enfim anunciaram nossa entrada. Bastou o primeiro de nós cruzar a porta pra começar a zoeira. Faixas de homenagem, apitos, cornetas de plástico, balões, confetes, serpentina, batuque… Se eu não soubesse que era dia de formatura, diria que o carnaval de Sabará havia começado mais cedo (ou mais tarde, dependendo do ponto de vista). Para mim, não haviam muitos motivos para festejar. Ou tinha todos os motivos? Afinal, já havia passado seis anos entrando e saindo daquele prédio. Minha vida mansa de distância dos livros acabava ali, e, assim que tudo aquilo terminasse, eu era oficialmente… Um desempregado. Mesmo assim, todos comemoravam.

Cada um ia ao centro do palco com todo aquele pagode ao nosso redor. Todos em fila, serelepes e sorridentes, menos eu, ainda incorporando o duelo Frank X Harmonica. Lá longe, avistei minha mãe e Dulce, sua melhor amiga e fidelíssima escudeira, discretas e dizendo “Sorria!”. Tão logo nos sentamos, a cerimônia teve continuidade. Como minha mãe disse no dia do seu casamento:” o circo está armado, vamos ao espetáculo!”  Nossa colega Débora, também apresentadora de um canal da TV por assinatura, foi a selecionada para ler o texto de despedida da turma. Sempre achei que o encarregado da tarefa deveria ser eu, mas,tradicionalmente ,ninguém veio falar comigo. Apesar de o texto ter sido o mesmo dos convites, Débora foi muito aplaudida. Após as formalidades, a tão sonhada hora do diploma se iniciou. A cada aluno que descia as escadas para receber o canudo das mãos de nossa amada batalhadora Lívia Turano, mais e mais zoeira de família e amigos do aluno ocorria. Acho até que, em determinado momento, vi alguém soltar um foguete dentro da sala. Todos eram recebidos com festa e palhaçadas, menos eu, pois meus pais e amigos da família são muito discretos. Enfim, essa foi a minha formatura.

Quanto aos aplausos, o problema é que viciam. Quanto mais os recebemos, mais queremos receber. E na ausência deles, sentimos-nos insignificantes. Ser elogiado por um trabalho bem-feito é uma pequena festa interior para qualquer um de nós. É o “momento Revista Caras”. Qualquer elogio dirigido a um comum representa uma pequena glória, comparável a cruzar a linha de chegada em primeiro lugar. Quase dá pra ouvir a musiquinha do Esporte Espetacular em nossos ouvidos. Somos uns bobos, pois no fim das contas vivemos em função dos outros. Todo mundo tem sua platéia particular. Qualquer um que disser “Não to nem aí pro que dizem a meu respeito” é um mentiroso.

A vida é um eterno jogo de aparências, todos nos medem não pelo que somos, e sim pelo que parecemos ser. Isso é clichê, mas vendo toda aquela festa de parentes e amigos dos demais formandos, ficou a impressão de que tínhamos nos formado pra agradar à platéia, não a nós mesmos. Por que essa necessidade de saber a opinião alheia sobre nosso trabalho? Está certo que vivemos de resultados, mas qual o motivo de valorizarmos tanto assim o que o outro diz?

Vocês estão nesse instante olhando para um exemplo de relação circo/platéia. Sempre quis ser reconhecido pelas minhas idéias, não pela beleza. Comecei o blog porque queria saber a opinião de vocês sobre as minhas opiniões. Entro e saio de outros blogs e não raro vejo comentários do tipo “excelente texto!”, “continue assim!”, “mandou muito bem!” e mais alguns elogios vazios de conteúdo, mas que não deixam de ser elogios. Ao passo que eu… Bem, vocês sabem, né? Preciso saber o que pensam vocês! Críticas fundamentadas são bem vindas! Aliás, eu desafio vocês a comentarem meus textos! Mostrem-me do que são capazes, a torcida está do seu lado!

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4 Respostas

  1. kkkkkkkk… divertido!

  2. Isso me lembra… A minha Formatura: Meia escola que se odiava e quando os oradores subiam no palco, vinha aquele discursinho clichê de sempre.

    Olhando hoje, dá vontade de voltar naquele dia pra, quando eu subisse pra pegar meu “canudo”, pegar o microfone e mandar todo mundo à merda.

  3. Ficou muito real. Apreciei também a ilustração do capelo roxo. Sem falar da sua pose de artista.

  4. Às vezes um olhar, cúmplice, acolhedor ou compreensivo significa muito mais que os aplausos de uma platéia inteira.
    Concordo quanto a precisarmos de apoio, de força, de algo que nos motive a seguir em frente em quase todos os momentos. Mas vale muito mais quando vem de quem realmente importa.. E continuo a dizer que não tô nem aí pro que ‘os outros’ falam! Mas ainda tô aí pro que ‘os meus’ dizem.. meus sentimentos, meus valores, minhas prioridades.. e pras pessoas que incutiram eles em mim.

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