A mão que balança a navalha


Tem coisas que fazemos por impulso ou por loucura. Semana passada, optei pela alternativa B. Passei a quinta-feira toda enrolando para ir podar a cabeleira. Estava de saída para BH – meu lugar favorito depois de minha casa – no dia seguinte.

Fazer barba e cabelo às 6 da tarde, no fim do expediente, é uma tarefa árdua, concordam? Tem uma fila enorme de mulheres, e nenhum cabeleireiro livre, mas naquele dia encontrei Gilson desocupado. Ele é o profissional que corta meu cabelo desde quando eu me “sentava” na cadeirinha de Pato Donald.

Toda vez que ele exerce sua função, recusa-se a fazer a minha barba. Nunca entendi o motivo. Ele sempre diz que não sabe fazer essa parte do serviço, o que não faz sentido nenhum, afinal ele não vê problema em brandir uma navalha pra fazer o “pezinho” do cabelo. Os outros colegas dele, que eu apelidei carinhosamente de Seu Madruga e Nhonho, me fazem a barba de graça, mas os dois já haviam saído.

Voltar pra casa com a barba sem fazer não constava no meu cardápio, então resolvi tomar uma atitude de homem- que talvez devesse ter tomado há mais tempo: fui à barbearia pé-sujo que fica duas ruas acima, afinal de contas, macho que é macho vai em barbeiro e ,quando não o encontra, faz a barba com martelo e talhadeira. Sabe aquelas barbearias “podronas”, que a navalha parece até chocolate de tão enferrujada? Antes essa fosse uma delas…

Quando cheguei lá, o dono já fechava a porta. Quase implorei pra ele fazer o serviço, no que ele acabou topando, não sem antes fazer cara de Neandertal quando a carne acaba. O sujeito era baixinho, afogado no próprio suor, com cara de quem comeu e não gostou, e pra coroar, o cabelo dele lembrava vagamente o do barbeiro canibal Sweeney Todd. Passei 20 minutos de olhos esbugalhados, acompanhando cada deslizamento da navalha e o humor do barbeiro em tensão máxima, quase rangendo os dentes de apreensão. Eu cheguei a ouvir a musiquinha de suspense na minha mente. Uma hora ele não agüentou e perguntou o que eu tanto olhava.

– Nada, é que você não sabe o pavor que eu tenho de navalha!- tentei disfarçar.

Quando passou a peça pela última vez, e eu já me preparava pra saltar fora da cadeira, mas ele me disse: Peraí, falta a segunda demão! Como eu não estava na condição emocional de retrucar – ou seja, desarmado, não tive outra escolha a não ser voltar à posição anterior. Finda a função, larguei dois reais na bancada e saí correndo com a cara ainda com espuma. Antes de voltar lá, preciso passar por pelo menos dez lições de virilidade, ou então voltar ao Prestobarba.

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2 Respostas

  1. Figaro, Figaro, Figaro. Isso lembra as duas versões do Barbeiro de Sevilha!

  2. Fazer a barba, assim como exame de próstata, é coisa para homem muito macho.

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