Última Fila


O sol de cada manhã (2005)

 

“As pessoas pararam de jogar coisas em mim na rua. Acho que é porque agora eu carrego arco e flecha comigo. Não sei.”

Sempre que eu assisto a qualquer filme, tenho mania de analisar cada personagem da trama pra ver se um deles é parecido comigo. E quando o “eu na tela” ocorre de ser o próprio protagonista, é melhor ainda. Modéstia à parte, isso não acontece com muita freqüência, mas quando acontece, é um espanto. Foi isso que aconteceu com este filme com apelo indie, dirigido pelo Gore Verbinski da saga Piratas do Caribe (que provou com O sol de cada manhã, que também é capaz de pensar). Não seria exagero dizer que este filme pode quase ter previsto meu futuro.

Quem vê na TV o homem do tempo David Spritz (Nicolas Cage, numa das raras ocasiões em que não interpreta o “fodão”) sente inveja do seu estilo de vida: Um salário de 200.000 por mês para aparecer duas horas por dia lendo os teleprompters da previsão do tempo, jovem, com um sorriso que enche a tela, bem sucedido na carreira profissional e vivendo a possibilidade de se tornar um repórter milionário em Nova York.

Porém, aquele sorriso enorme esconde uma mina a ponto de desmoronar. A ex-mulher de David o abomina e está em vias de se casar com um cara que ele odeia. A sua filha de 12 anos está deprimida por ser ridicularizada na escola e começou a fumar. O seu filho mais velho é alvo de tórridos desejos do seu professor homossexual de fotografia. O seu pai (Michael Caine, simplesmente cativante), um escritor famoso ganhador de três Pulitzers, está praticamente no leito de morte, e David teme que ele morra sem tê-lo considerado um ser humano.

Como se isso não bastasse, David ainda sofre de “complexo do homem do tempo”, pois quando a previsão erra, toda a cidade põe a culpa nele e vive a fazê-lo de palhaço, com piadinhas e até jogando comida nele. Como veem, o famigerado “American Dream” sempre esconde um lado sombrio.

Ele, pra variar, não consegue lidar bem com nada disso, sentindo-se deprimido e isolado do mundo. Conta com uma promoção vinda de Nova York para ganhar o respeito do pai antes que este morra. Apesar de todos os trancos que leva, David tenta limpar a poeira do corpo e seguir adiante. Procura se inscrever com a ex numa terapia de casais, com resultados desastrosos. Inscreve-se com a filha num curso de arco e flecha, pelo qual ela logo perde o interesse. Mas ele continua aprendendo a atirar, e, a partir das aulas, começa a perceber tudo de errado que tem feito em sua vida, e logo vê que tem sido um babaca desde sempre. Enche os ouvidos de todo mundo com palavrões, e quando vai realizar uma tarefa simples, como comprar um molho de saladas, por exemplo, acaba se enrolando e agindo como um adolescente.

Quando recebe a notícia que o professor assediou seu filho sexualmente, e que o casamento de sua ex está marcado, é a última gota. Ao ver que seu antigo quadro familiar é irreversível, e que não pode mais realizar seu sonho de mudar para NY com a família e recomeçar a vida do zero, percebe que não tem mais nada a perder.

Fala-se muito sobre como fazer a narração em off às vezes estraga a qualidade de um filme, mas nesse caso, 90% da história é rodada dessa maneira, talvez para mostrar o lado repórter do protagonista, deixando-a com uma leve cara de documentário. Filmado totalmente num inverno rigoroso, com neve por todos os lados, traz uma visão realista, mais para ácida, como poucos filmes americanos o conseguiram até hoje. Retrata a busca por respeito e auto-afirmação, mostrando como, nas palavras do próprio pai de David, a palavra “fácil” não pode constar no vocabulário de nenhum adulto.

Esse filme poderá inspirar muitos losers por aí, eu incluso, a reavaliar a própria vida e dar a volta por cima. Vale a pena procurar por esse pequeno clássico.

NOTA: 8,5

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Uma resposta

  1. Me soou clichê pela resenha :S

    Mesmo se tratando de filme do Nick Cage

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