Última fila


Compañeros(1970)

 

Em seus primeiros anos de carreira, o diretor italiano Sergio Corbucci tornou-se especialista em faroestes de baixo orçamento, carregados de sangue, feiúra e sujeira, fugindo completamente do estilo “o Oeste é uma obra de arte” do John Ford. Ele e Franco Nero formavam uma dupla dinâmica assim como Ford e John Wayne, ou Leone e Clint Eastwood. Mas a sorte de Corbucci mudaria em 1968 quando se associou com o legendário produtor Alberto Grimaldi, famoso por sua parceria com Sergio Leone em todos os seus faroestes. Enfim, ele teve acesso a todos os o recursos que achava merecer, e de 1968 a 1970 fez uma trilogia de filmes que, ao lado do clássico absoluto Era uma vez no Oeste, trouxe um novo fôlego ao gênero que já mostrava sinais de cansaço: O vingador silencioso, O mercenário e Compañeros.

Corbucci foi um dos responsáveis pela popularização de um novo tipo de filme de aventura, denominado Zapata Western. Aproveitando a horrorosa ditadura militar pela qual passava a Itália e os anseios marxistas de liberdade do povo italiano, ajudados pela revolta em Paris de 1968, esses filmes usavam o contexto da Revolução Mexicana de 1914 para expressar o que a Itália sentia quanto ao seu governo. Esses filmes seguiam sempre a mesma estrutura: Camponês mexicano rebela-se contra seus mandantes e é alçado a grande herói de sua gente, faz amizades com um assassino/ traficante de armas e, durante suas andanças, o modo de pensar de um acaba mexendo com a cabeça do outro e vice-versa.

De volta ao filme em questão, esse pode ser considerado uma versão zapatista e mais engraçada do clássico O bom, o mau e o feio de Leone. Aqui, o cubano Tomás Milian- talvez o ator mais convencido que já pôs os pés no planeta- dá vida a Vasco, um idiota idêntico a Che Guevara, que trabalha como engraxate na junta militar, que tentava eleger Porfírio Diaz para seu quinto mandato presidencial. Os militares implicam tanto com Vasco que ele rouba a espada de um deles e o mata. Mongo, o líder de um bando revolucionário local, vê tudo e o chama para ser tenente do seu bando. Ao mesmo tempo, o ultra-cool traficante de armas sueco Yodlaf Peterson (Franco Nero, menos canastrão que o habitual) chega à vila para fechar negócios com Mongo, mas há um probleminha: o general revolucionário está na miséria, e espera conseguir saquear o cofre da vila para ter como pagar pelas armas que comprou de Peterson. A única pessoa que sabe a combinação do cofre é o revolucionário Prof. Santos, mas no momento se encontra prisioneiro em Yuma, do outro lado da fronteira.

Desde o começo existe muita animosidade entre Vasco e Peterson, ao qual ele jocosamente refere-se como Pingüim, por causa de seus trajes extremamente inapropriados para a aridez mexicana. Por ironia do destino, Mongo acaba incumbindo aos dois da missão de resgatar Santos, e como não poderia deixar de ser, eles acabam tornando- se amigos e cúmplices, numa relação bem ao estilo Tom e Jerry. Mas a viagem até Yuma não é nem um pouco tranqüila. John (Jack Palance), um velho parceiro de Peterson, maconheiro, que tem uma mão de madeira e um corvo, ao qual o sueco traiu no passado, está no encalço dos dois, em busca de vingança pela perda de sua mão.

Todos os elementos de filmes anteriores de Corbucci encontram- se aqui: massacres com metralhadora, humor negro, falas improvisadas, contextos políticos e religiosos, espírito livre, cenas de ação gravadas com câmeras de mão e o eterno sentimento de que ainda há esperança para seus personagens. Ele costumava ser duramente criticado na época por usar histórias politizadas como meros pretextos para a carnificina desenfreada e para as cenas de ação, mas com este filme, que foi o último bom de sua carreira, enfim se redimiu com a crítica, apesar de ter-lhe custado a perda da amizade de Nero, que sentiu-se minimizado por todo o tempo de cena dedicado a Tomaz Milian. No mais, um filme que vale muito a pena ser garimpado. Pode ser encontrado naquelas promoções de 9,99 de qualquer supermercado.

 

¡Y VAMOS A MATAR, COMPAÑEROS! 

NOTA: 9,0

Anúncios

Uma resposta

  1. Obviamente, esse filme foi proibido na época, certo?

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s

%d blogueiros gostam disto: