Última Fila


Django, o bastardo(1969)

 

Esta cena de abertura dá o tom de um dos filmes de suspense mais estranhos já feitos.

Tal como os turcos, os italianos pouco se lixavam para direitos autorais nos anos 1960. Qualquer um podia rodar um filme e alfinetar nele o nome de um personagem famoso do gênero pra fazer uma grana extra e sair impune, afinal, no fundo, um nome é só um nome, que qualquer um pode ter. Dirigido pelo diretor de filmes de terror B Sergio Garrone – não me surpreenderia se tivesse se tornado moda entre os cineastas italianos da época mudar o primeiro nome para Sergio devido à fama de Leone, dada a quantidade deles que apareceu da noite pro dia. O filme foi escrito por Garrone e pelo protagonista, o brasileiro(!) Anthony Steffen – nome artístico de Antônio de Teffé, e é, da primeira à última cena, uma pornografia de balas e sustos, cuja quantidade de tiros consegue rivalizar apenas com os filmes de Charles Bronson e, talvez, com o clássico A morte anda a cavalo.

Tal qual uma alma penada, esse Django pula pra fora dos lugares mais improváveis, mata de susto suas vítimas antes de matá-las de fato e simplesmente desaparece. Ninguém sabe quem ele é nem de onde veio exceto as suas vítimas. Com suas vestes negras, ele parece a própria morte, gelado e implacável, disposto a fazer qualquer coisa para cumprir seu objetivo. Seria ele um espírito ascendido do inferno para vingar a sua própria morte? Nunca saberemos, e talvez nem devêssemos saber. Este é o truque de Garrone para manter a tensão da trama. Simplesmente nos entrega o passado sombrio do personagem. Há 15 anos, Django e seus companheiros de regimento na Guerra Civil foram vendidos ao Exército Nortista por seus três superiores, que assim conseguiram escapar com vida da guerra e prosperar, enquanto seus homens foram fuzilados pelas costas, pelo exército inimigo. Do início ao fim, o diretor não deixa claro se Django é um sobrevivente ou um morto-vivo vingador.

Garrone usou certos enquadramentos incomuns para faroestes italianos, posicionando suas câmeras em lugares e ângulos onde nem mesmo o Leone pensaria. A impressão que eu tive foi que esse talvez seja o spaghetti western mais “japonês” da era de ouro do gênero. Adoro falar do clássico orçamento apertado dos faroestes italianos, mas o que fazer quando o dinheiro simplesmente não existe? É preciso ter muita competência e malandragem para conseguir disfarçar que o único dinheiro da produção foi para comprar os rolos de filme. As casas típicas do Oeste são de madeira apenas na fachada, escondendo as paredes de tijolos por dentro e atrás, contendo inclusive um improvável corrimão de cano de metal num a escadaria de concreto, que eu suspeito que seja o próprio corredor do estúdio. Eu sei que esse detalhe é mínimo, mas não dava pra deixar escapar.

Os únicos recursos com que Garrone e Steffen puderam contar foram com a atuação macabra e lacônica do ator, que é quase como um Clint Eastwood morto- ele mal chega a ter dez falas no filme todo, e com a atmosfera das cenas. Muitas sombras, escuridão, câmeras tremendo e truques de espelho são usados com quase perfeição pelo diretor para deixar o filme parecendo uma versão rudimentar, mas muito bem executada de Mannaja, de 1977.

No mais, apesar de não ter nenhuma cena de massacre com metralhadora como o Django verdadeiro – também, como o filme foi feito a custo sub-zero…- esta é talvez uma das únicas seqüências não-oficiais capazes de rivalizar à altura com o filme de Franco Nero e Sergio Corbucci. Nefasto, gélido e pavoroso, ele garante que você não vai conseguir dormir por alguns dias…

 

NOTA:7,5

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2 Respostas

  1. Adoro westerns e com esse seu chamado, deu uma grande vontade de vê-lo. Crítica na medida.

  2. Esse começo justifica a fotografia esquisita da resenha!

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