Universos paralelos em desencanto


Todo dia eu vivo a mesma situação. Ela olha pra mim, eu olho pra ela por minutos, até horas, vendo se conseguimos entrar num acordo, se conseguimos ser mutuamente benéficos. Mas o perrengue sempre se repete. O que fazer?

Se alma existe, a minha se revela através do papel. Não neguemos o fato. A raça humana é serva do papel. Praticamente tudo ao nosso redor é feito de ou contém papel e derivados. Você acorda, vai ao banheiro e se limpa com papel higiênico. Toma o café e limpa a boca com guardanapo. Passa horas no engarrafamento recebendo panfletos que ninguém lê e multas. No escritório, alterna as horas de trabalho entre assinar formulários, separar papeis em ordem alfabética, reclamar com a impressora que vive comendo as folhas e ler o jornal. Na hora do almoço, joga quilos de papelão no lixo do shopping. Chega em casa, apanha a correspondência e 90% dela são propagandas e ofertas que você não quer nem de graça. Isso sem falar em todo o dinheiro que ganhamos e perdemos ao longo do dia em forma de notas, talões de cheque, bilhetes de loteria… Se alienígenas invadissem o planeta a fim de falar com nossos líderes, acabariam proseando com revistas na banca, pensando que os papéis são os grandes ditadores.

Em toda a minha vida, os únicos amigos com quem eu posso contar são os papéis. Se for branco e achatado, lá estou eu em cima dele. Desenhando, escrevendo, fazendo dobraduras, sonhando, enfim, dando asas à imaginação. O papel é meu melhor amigo, mas também o que mais me faz sofrer. Desde criança, quando eu grampeava várias folhas juntas e enchia de rabiscos ininteligíveis, me condicionei a acreditar que o papel seria o meio pelo qual construiria minha carreira. Assim que compramos o primeiro computador, lá em 2000, não tardou até que eu forçasse meus pais a comprar um scanner. Foi o primeiro passo para ficar conhecido fora de casa, numa forma de mídia ainda ingênua e, até aquele momento, um tipo de “social club” a que poucos tinham acesso ainda.

Meus primeiros desenhos foram descobertos pela manga-ká Denise Akemi, que os disponibilizava em seu site. Através dele, fiquei conhecendo o grupo de discussão Manga-ká Brasil, uma forma muito popular de trocar idéias naqueles tempos, sem MSN e com poucos fórums de discussão disponíveis. Infelizmente, procrastinação é um de meus piores defeitos. Era de se esperar que, depois de desenhar bastante, eu começasse a fazer minhas próprias histórias em quadrinhos, mas sou um sujeito tão exigente quanto medroso. Ainda não me considero com rigor técnico o suficiente pra criar cenas de ação. Desde que comecei a desenhar, nunca treinei desenhar trivialidades como móveis, natureza, cenários… Também, com tantos personagens em minha mente, pra que eu ia querer aprender a desenhar uma cadeira? Quando me dá o temível “branco”, com o qual todo artista sempre se depara, sei lá. Eu fico meio desorientado no mundo real. Fico me achando ainda mais inútil que o habitual.

Apenas há seis anos, resolvi me aventurar no ramo da literatura. Antes de escrever esses ensaios que ninguém comenta, eu sou um escritor de histórias de ação que ninguém comenta também. Sou apaixonado por filmes de ficção científica, seriados de ação japoneses e animes. Já criei centenas de personagens, várias séries e desenhei muito, mas nunca consegui levar uma única série ao final. O único motivo pra isso é a eterna falta de feedback. Talvez por minhas séries fugirem completamente do que quase todos os meus colegas “fanfiqueiros” fazem geralmente – A.K.A. plágios descarados das séries japonesas que estão atualmente no ar, e por criar histórias talvez um pouco rebuscadas demais, eu não receba o reconhecimento que julgo merecer. Quem escreve, sabe que sem o apoio dos fãs e sem as opiniões deles sobre seu trabalho, fica difícil sentir-se motivado para terminar uma saga. Afinal, sabemos que sabemos escrever, mas queremos receber das outras pessoas um retorno, e ver se também compartilham desse sentimento.

Tenho o sonho de fazer das minhas idéias um pé-de-meia, desde que percebi que não teria futuro nas áreas óbvias em que todo homem se mete, como futebol e indústria pornô. Já pensei, sonhei, idealizei, escrevi, desenhei tanta coisa, mas parece que quanto mais eu preencho espaços em branco, mais vazio eu me sinto.

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4 Respostas

  1. Pouco a pouco, com alguma melancolia e muito talento, você vai deixando o seu rastro nesse mundo. Depois…O que importa o depois? Depois a gente vê!

  2. Conselhos eu não dou, fico me sentindo
    a Mãe Dinah e outra coisa, detesto o tal
    do Bombril( mil e uma utilidades ).
    Ontem só quem lia os meus textos era a minha mãe
    minha cobaia favorita. Hoje, não sei, mas acredito que mais
    pessoam se interessam pelos meus textos.
    Se vai dar em alguma coisa? Não sei, mas se der, beleza!
    Ma, se demorar…papel não há de faltar…
    Você é cheio de talentos, tá no caminho certo.
    Beijos

  3. Salvo engano, das tuas séries, LONG foi a única que teve um final. E eu não fico atrás: demorei dois anos e meio pra encerrar RF.

  4. Yamar,
    Você sabe que sempre gostei de acompanhar tuas séries.
    E vc fez o mesmo por mim.
    Só espero que nunca pare de escrever.
    Porque como eu, vc só tem este papel como amigo e a internet pra mostrar o que é capaz.
    Outra coisa:
    Nosso reconhecimento aparece…Depois que a gente morre!!!!
    Não vai nessa de que fulano tá vivo e ganhando dinheiro com seu livro ou coisa e tal…
    Isso não é livro…é produto!!!!

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