Medo de viver


Analise essa. Há um mês voltei a me consultar com um psiquiatra, depois de duas experiências um tanto pitorescas anos atrás, a fim de tentar dar um passo adiante à minha batalha incansável rumo à carteira de motorista. Devido ao clássico machismo latino, eu não sou lá muito entusiasta de longas conversas com homens, mas, por mais estranha que a ideia possa me parecer, dessa vez tem até havido sinergia entre interrogador e interrogado. O diagnóstico que o doutor tem me ajudado a perceber é que dá o título à crônica.

Certas pessoas são iguais a feijão: Só funcionam na pressão. Eu, pelo bem ou pelo mal, não sou um desses. Praticamente durante toda minha vida, evitei entrar em discussões ou conversas muito longas. Não sei por que, mas sempre que as pessoas começam a me perguntar coisas com muito afinco, muita insistência, simplesmente perco o controle, como naquelas cenas de filme de tribunal quando o réu, vendo seu espírito ser extraído até a última gota, berra “QUE C****** VOCÊS QUEREM DE MIM?”.

Sinto como se estivesse cumprindo meu último desejo, a um passo da corda e do alçapão. Talvez eu me sentisse mais à vontade falando de mim se eu não sentisse tanta vergonha de ser o que sou. Desde que acordo, sinto medo. Mas não medo de trivialidades como a morte , pois dela todo mundo tem, ou de rato, barata, lagartixa, grilo ou borboleta, porque não pega bem macho com medo de bichinho.

Tenho medo é de ser o que eu quero ser. Se não tivesse, esse blog provavelmente nem existiria. Toda coisa que dá errado comigo eu tomo como uma lição pra toda a vida. Faz dois anos que eu não tenho namorada, pois meu primeiro namoro foi um tanto traumático. Qual é o problema das mulheres de hoje? Todas vocês querendo cada vez mais espaço no mundo, mais poder, mais velocidade, e cobrando que nós homens, macacos decerebrados, as acompanhemos nesse ritmo de escalada meteórica rumo à dominação mundial. Pra vocês, homens precisam ser verdadeiros gladiadores e panzers no trabalho, no cotidiano e, claro, na cama – tal qual vocês mesmas. Mas apesar de termos dominado o mundo desde sempre, nós homens não funcionamos ligados no overdrive 24 horas por dia. Eu sei que nem todas são castradoras e rainhas da exigência, mas a primeira impressão é a que fica, né?

Quem já acompanha meu blog há mais tempo sabe de cor e salteado meus anseios artísticos. Tudo o que eu mais quero é ser conhecido no país por minhas idéias, ao contrário da maioria dos homens para quem basta ter uma bola nos pés ou talento na cama e não precisa querer mais nada. Mas eu tenho TANTO medo de me dar mal nessas empreitadas! É certo que cedo ou tarde o passarinho tem de sair da asa da mãe, mas eu prevejo que, assim que eu sair de casa, tudo vai começar a dar errado em minha vida. Quando mais novo, eu tinha uma colega cuja mãe nunca, jamais, em qualquer hipótese a deixava sair de casa, uma verdadeira gata borralheira – e o pior é que ela era bem gatinha… Assim que a mãe deu sinal verde pra ela, saiu de casa e voltou grávida, poucos dias depois.

Cresci acreditando que nunca passaria por apuros na vida adulta, que assim que conquistasse o canudo, no dia seguinte já choveriam propostas de trabalho. Bom, digamos que eu tenha me distanciado um pouquinho dessa ilusão… Afinal, se estivesse trabalhando, não estaria na frente desse monitor, escrevendo esse bolodório pseudo-intelectual. Em tempos de excessos como o de agora, a felicidade não é mais um mero sentimento, é algo mandatário. A cada momento nos dizem “você PRECISA ser feliz, PRECISA aproveitar a vida.” Isso como se a felicidade pudesse ser imposta, como numa ditadura. Em qualquer peça de publicidade, as supostas famílias têm sorrisos mais falsos que os da propaganda da Kolynos, com dentes alvos e brilhosos, mesmo depois de dar uma mordida num biscoito de chocolate. Mas eles ignoram o fato de que muitos de nós simplesmente não têm o dom de ser feliz, por mais que o conceito de felicidade seja subjetivo.

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4 Respostas

  1. Quando o maior sonho de alguém é o topo do Everest, quando chega lá, pode não sentir que é tão alto quanto parecia. Assim, melhor do que chegar, é estar subindo, pois quando no alto, o que resta é descer.

  2. E a cada dia, fodem mais nossas cabeças dizendo que o ideal de vida é o que se passa em peças publicitárias…

  3. Bem,
    Comigo acontece o seguinte…
    Sempre me dei mal nos projetos que poderiam me dar dinheiro…
    Daí quando fazia algo por vontade, porque gostava, vinha o reconhecimento.
    Hoje noto que não faz diferença um ou outro…
    Como o Artie disse “fodem nossas cabeças com peças publicitárias” enquanto que na verdade o que importa é o que somos pra nós mesmos, sem é claro prejudicar os outros(pq não gostaríamos que nos prejudicassem não é mesmo)
    Bom é isso!
    Perca logo esse medo de viver pq seu tempo se esgota a cada dia…e na verdade não sabemos se estaremos aqui amanhã!!!

  4. Medos, desejos, anseios, sonhos…
    Fazem parte da vida.
    E quebrar a cara vem no pacote.
    Hoje, tava olhando o meu convite de formatura e
    posso contar nos dedos quem seguiu o tracejado.
    Os desvios acontecem na mesma proporção que a
    necessidade. Já lecionei, parei, me especializei e
    me decepcionei várias vezes. Cobrança de todos os lados,
    essa é parte chata da coisa. Mas, não desisti não.
    Ainda planejo e mesmo com “neguinho” me apontando o dedo, vou seguindo. Quem vive a minha vida sou eu.
    Beijos

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