Meus herois morreram de overdose


O que a capa do Superman, as chaves do Batmóvel, o chicote do Indiana Jones, a fiel carabina Winchester de John Wayne, a espada do He-man, as pastilhas encolhedoras do Chapolin Colorado, o Daileon, o revólver Colt Peacemaker enfeitado com uma cascavel na coronha e o toquinho de cigarrilha fumado pelo cowboy de Clint Eastwood, uma calota do Herbie, o nariz do Bozo, a bola do Quico, as Esmeraldas do Caos, a cenoura do Pernalonga, a malandragem do Pica-pau e a buzina do Chacrinha têm em comum? Se você for como eu, em algum momento da vida, quis um desses itens.

Cada geração tem os seus ídolos. Nos anos 1920 existiam Charlie Chaplin e Buster Keaton, e também o maior astro até então dos faroestes mudos, Tom Mix. Na década seguinte os personagens da indústria da animação, em seu estado seminal, estavam com tudo. Todo moleque queria ser como o espevitado Mickey Mouse, o babaquinha Gaguinho ou o brucutu monstruoso Popeye – por um acaso, Brucutu foi o primeiro nome dado ao Popeye no Brasil.

No início dos anos 40, se você queria ser popular com as mulheres, deveria ser fã do Superman, e tinha de escolher entre Bing Crosby e Frank Sinatra. Nessa mesma época, a popularidade dos personagens animados da Warner Bros. atingiu a estratosfera, com Pernalonga e Patolino deixando seu país para esculachar Hitler, Mussolini e Hirohito nos campos de batalha. A década em questão viu surgir a maior estrela da história do cinema americano: John Wayne. Era tão popular na época que, no Japão, ninguém sabia o nome do presidente dos Estados Unidos, mas podem apostar que sabiam quem era John Wayne.

            Vieram os anos 50, a década que talvez tenha criado os dois maiores ídolos jovens da história: James Dean e Elvis Presley. A juventude havia enfim conquistado seu espaço. Podia ouvir música diferente daquela que os seus pais ouviam, usar roupas mais despojadas, assistir a ídolos mais jovens nas telas do cinema e da televisão, quebrar o establishment vigente e demonstrar o primeiro esboço de delinqüência juvenil. Isso deu uma sensação de liberdade que os moleques jamais haviam experimentado. Afinal, quem ia querer assistir um cowboy de 60 anos dando tiro na cara dos Apaches quando, na sala ao lado, podiam ver Elvis saracoteando as pernas, Jerry Lee Lewis tocando fogo num piano ou James Dean, com o cabelo lotado de Gumex e de camiseta, dirigindo um conversível?

            Duas palavras: Anos 60. Caralho, que década foi aquela? Sempre sonhei viver na época em que tudo que temos hoje foi esboçado. A maior criadora de mitos e ídolos jovens de todos os tempos! Beatles, Rolling Stones, Hendrix, Jim Morrison, Clapton, Clint Eastwood, Steve Mcqueen, James Bond, Hanna-Barbera, Neil Armstrong… Sei lá, Francisco Cuoco, Tarcísio Meira… Todos foram imortalizados no coração dos jovens e continuam sendo reverenciados até hoje.

            Já nos anos 70 começou a haver uma pequena escassez de ídolos. As pessoas estavam preocupadas demais com o Watergate, a crise do petróleo e em cheirar cocaína para querer inspirar a juventude. Quer dizer, tirando John Travolta, Darth Vader e o Kiss, quem mais apareceu? Quando eu, meus primos e amigos éramos crianças, lá nos longínquos anos 80, sempre estávamos em busca de uma influência além da de nossos pais. Caras durões, que sempre resolvem tudo, que nos fizessem sonhar em ser como eles um dia. Personagens de desenhos animados ou de carne e osso, e naquela década só deu isso. Vamos à lista: Stallone, Schwarzenegger, Chuck Norris, Charles Bronson, Van Damme, He-man, Thundercats, Silverhawks, G.I Joe, Jaspion, Changeman, Mr. T… Sem dúvida, a década mais carregada de testosterona e explosões do século XX. Não eram bons exemplos pra ninguém, mas ainda funcionavam como ídolos.

            Aí chegaram a internet, a era da informação e a aldeia global na década seguinte. E, com tudo isso, a superficialidade da vida. Já não existem muitos heróis no mundo, pessoas com ideais pelos quais vale a pena morrer. Quem inspira a gurizada de hoje? Justin Bieber? Amy Winehouse? Lindsay Lohan? Harry Potter? Crepúsculo? Luan Santana? Pode até ser que ainda existam ídolos e fãs, mas apenas o exterior das pessoas é admirado. Hoje, você tem, logo existe. As pessoas se amarram no seu carrão importado, no ouro que craveja suas obturações, na escova progressiva em seus cabelos e na fragrância Jean-Paul Gaultier que impregna suas roupas. E ainda somos forçados a engolir o conceito de que o mundo só pode ser assim.

 Cadê os grandes inspiradores dessa geração?

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Uma resposta

  1. Impossível não rir em várias partes das suas reflexões.

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