Bem mais ao Sul…


 

Às vezes o progresso pode ser prejudicial. Vocês se lembram de quando eram crianças e esperavam viajar para uma cidade maior, só pra visitar lojas mais sofisticadas ou então comer em seus fast-foods favoritos? E de quão grande foi sua decepção quando resolveram trazer essas lojas para sua cidade? É de matar qualquer aura nostálgica, afinal, se tais lojas estão a um palmo de seu nariz, por que pensaria em pegar 500 km de estrada só para vê-las em outro lugar?

Mas, pelo menos para mim, algumas tradições simplesmente não morrem. Os mais escolados em meus textos sabem de trás pra frente e do avesso que, depois do colo da mãe e do meu quarto, o lugar onde eu mais gosto de estar é minha adorada Belo Horizonte. Os mesmos escolados também sabem o quanto sou nostálgico quanto a meus tempos de criança hiperativa, correndo feito barata tonta dentro do meu templo, o BH Shopping, pondo a mão em tudo que via pelo caminho e querendo comprar até não aguentar mais.
Sempre que possível, eu e meu pai tentamos ir dar um abraço em minha cidade favorita, e nesse fim de férias- mãe diria “Que fim de férias o quê? Você vive em férias eternas, a sua vida é um grande domingo!”- não poderia ser diferente. Porém, desta vez, planejamos um roteiro de viagem diferente. Pegamos estrada na quinta, para ficar metade do dia mais sexta na cidade e aproveitar o sábado para fazer um turismo histórico pelo Sul do estado. Mas precisavam colocar o Sul TÃO ao Sul assim?

Piadas à parte, vamos à viagem, ou, como convencionei chamá-la desta vez: aventura.

Tão tradicionais como nossas visitas à capital, já o são as paradas nas obras da BR 135. Batemos o recorde nessa ida: Foram 10 ao todo, variando de 10 minutos à quase meia hora, que alongaram a viagem em três horas! Num comparativo, noutros tempos, dependendo de nossa pressa, às 11 da manhã já estaríamos saindo de Sete Lagoas. Agora sequer havíamos chegado a Curvelo! Um tremendo abuso da nossa paciência! E a parte triste da história é que quando a reforma terminar, o tempo a viagem poderá permanecer em oito horas. Como se diria nos anos 1940, da próxima vez tente um trem…

Vencida a estrada e já alimentados – obviamente no BH Shopping – chegou a fase 2 da história: hotel. Por essa não esperávamos: ocorria na cidade um congresso MUNDIAL de Geriatria, e todos os hotéis estavam abarrotados. Não conseguimos quarto nem nas hospedagens habituais, e nem nas pensõezinhas podronas de periferia, onde uma corda esticada de uma ponta a outra no quarto faz o papel da cama. A propósito, a cidade está um verdadeiro caos! Andar de carro já é um sonho distante, e os estacionamentos, além de caríssimos, estão mal-localizados, mal-dimensionados e sempre lotados. Nem quero imaginar como vai ser na copa de 2014…

Anyway, depois de passar o resto da tarde procurando um quarto vago, quando a cabeça de meu pai estava a ponto de explodir e era evidente que acabaríamos ou voltando para casa no mesmo dia ou indo para outra cidade, eis que minha intuição extra-sensorial deu-me um palpite salvador: Apontei para um pequeno hotel escondido no centro, e, para nossa total AAAAAAAAAALELUIA, ele tinha vaga! Estávamos salvos! E não podia ser melhor: Três quarteirões abaixo de um shopping, duas lojas à esquerda de uma franquia de fast-food e 1 km distante do shopping de quinquilharias Made in China. Melhor que isso, só dois disso.

Não me levem a mal, porcos imperialistas de plantão. Gastar dinheiro no shopping é deveras terapêutico, e como o fizemos nessa viagem… Foram legítimos 120 dias de Sodoma em um dia e meio com dinheiro e cartão de crédito, de um jeito que deixaria o Tio Patinhas vesgo. Isso foi demais, só que o bom mesmo da viagem foi o sábado.

Dirigimos o dia todo através da tal Estrada Real, planejada pelo Governo do Estado para ser uma espécie de Caminho de Santiago de Compostela em Minas, as famosas rotas místicas, para que as pessoas fizessem procissões rumo às cidades históricas. Idéia interessante, mas, em toda a trajetória desértica, não vimos um único peregrino no asfalto. Bom, se a “Estrada Real” é assim, calculem a “Estrada Fictícia”… Zarpamos bem cedo para conhecer – no caso de pai, recordar – a tríade Congonhas do Campo/ Conselheiro Lafaiete/ Ouro Preto. Nunca havia estado em nenhuma das três, já meus pais… Há muito tempo atrás, numa galáxia muito, muito distante, eu fui concebido em “Lafá”. Visitar essa cidade foi praticamente uma experiência transcendental para mim. Nunca havia visitado Ouro Preto na vida, e… Minha Santa Carupita, que cidade sensacional! O sonho de qualquer anarquista: Sem semáforos ou placas de trânsito, devido a leis de preservação do patrimônio histórico. Qualquer um que se arrisca a andar de carro ali está simplesmente nas mãos do destino, ou de um ou outro guarda de trânsito. Não existe UM ÚNICO arranha-céu em toda a cidade, sendo o maior edifício o Museu Tiradentes. De algum modo, me lembrou a Grécia antiga, onde nenhuma construção podia ser mais alta que o Parthenon.

Nunca em toda minha vida eu tinha visto ladeiras tão altas quanto as de Ouro Preto, nem mesmo na capital!Uma das mais preciosas cidades do mundo talvez seja Congonhas, a tela branca de Aleijadinho – ou, como a correção política permite, Portadorzinho de necessidades especiais. Mais que um gênio, Antônio Francisco Lisboa certamente não tinha televisão em casa – pudera, ela não havia sido inventada… A riqueza de detalhes de suas esculturas, principalmente das sete capelinhas relatando os últimos dias de Cristo, é espantosa. Volto pra casa, satisfeito, e já esperando pela próxima viagem. Viva Minas Gerais!

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Uma resposta

  1. O seu diário de bordo é ver você.

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