Isso é que é usar a cabeça!


Nunca compreenderei o que se passava pela mente do diretor Sam Peckinpah (1925/1984). Ele sempre me pareceu pronto a rasgar a própria pele e abandonar seu corpo. Detestava Hollywood, arrumava confusão com todo mundo, não entrava em acordo com os estúdios, suas obras não chegavam às telas em suas versões completas, sendo vítimas do serrote dos estúdios. Marrento e anti-social, alcoólatra e drogado contumaz, num famoso caso, detestou de tal modo uma versão editada de um de seus filmes que urinou na tela do cinema. Resumindo, o cara foi praticamente o Maradona americano.

Não que isso o tenha impedido de se tornar um dos mais cultuados diretores da história. Praticamente não tirou a cabeça do Velho Oeste, sendo um apaixonado pelos códigos de honra e senso de companheirismo dos cowboys, invocando sempre tais códigos em seus westerns revisionistas. Seus personagens são deslocados da realidade, com visões românticas de moral e ética, em momentos históricos em que nada disso tinha valor, ou seja, eram clones do diretor. Ele foi um grande inovador das cenas de ação. Se hoje você vibra com cenas de massacre em câmera lenta, banhadas em sangue, saiba que nada disso existiria sem Peckinpah. Mas, ao contrário do que muitos costumam pensar, ele não mostrava sangue e brutalidade gratuitamente, sua intenção com a clássica cena da batalha final em Meu ódio será sua herança (1969) era fazer a audiência sentir repulsa pela violência. E, como quase ninguém enxergava os filmes desse ponto de vista, passou o resto de seus dias se lamuriando e enchendo a cara.

Como vemos, ele teve muitos demônios para exorcizar. Nos anos 70, em busca de maior liberdade criativa, mudou-se para o México, onde poderia fazer seus filmes, pelo menos em tese, da forma como queria. Ainda que a mão dos estúdios continuasse pesada sobre sua obra, ele se orgulhava de ter tido pelo menos um filme que passara imune pela tesoura da MGM, o drama de ação Tragam-me a cabeça de Alfredo Garcia, de 1974.

Aaaaaaaaah, o México… O país que tem mais católicos que o Vaticano. Lá até os ateus são católicos. Terra de gente boêmia, religiosa, e, acima de tudo, neurótica e armada, como o diretor de filmes trash Robert Rodriguez sempre explicita em seus filmes.
Vamos ao inacreditável script dessa balada: A filha adolescente de um importante latifundiário mexicano, conhecido como El Jefe engravida de Alfredo, um michê local. Revoltado, o pai da moça manda que seus jagunços procurem-no e o matem. Acontece que o sujeito já está morto, então ele oferece uma recompensa de $1.000.000,00 para quem lhe trouxer sua cabeça, provocando uma bizarra caça ao tesouro. Dois jagunços vão a um pequeno bar, onde Benny, um pianista fracassado que faz servicinhos de matador nas horas vagas, diz conhecer alguém que sabe do paradeiro do defunto: Elita, uma prostituta por quem é apaixonado. Ele a convida para ajudá-lo a encontrar o cemitério onde Alfredo foi enterrado, arrancar sua cabeça e entregar ao Jefe para receber a recompensa e se casar com essa namorada. Ela reluta, mas acaba aceitando a proposta e se propõe a indicar o caminho.

Mas como isso aqui é um filme, Benny e Elita não têm idéia do inferno astral que os aguarda. No meio da estrada, são abordados por motoqueiros transtornados que tentam estuprar Elita, e outros jagunços que os seguiam, os atacam no cemitério quando já haviam conseguido decapitar Alfredo. Enterram Benny vivo e matam Elita. Ao acordar de seu calvário, Benny rastreia todo o México para achar a cabeça e vingar a morte de sua amada, esvaziando todas as garrafas de todos os bares pelo caminho, numa dupla bebedeira e ressaca que não tem fim.

Como vêem, Benny é uma caricatura fiel de Peckinpah. O ator que o interpreta, Warren Oates, imitou o bigode, a forma de se vestir, os maneirismos e até pegou emprestado um dos óculos escuros do diretor, parecendo um Mazaroppi mexicano. O personagem principal na visão de Oates é um homicida alcoólatra, que sente que não tem mais nada a perder na vida, cumprindo sua missão deserto afora com niilismo e total abandono. Assim que perde Elita (Isela Vega), começa a ter alucinações, conversando com a cabeça decepada de Alfredo, guardada num saco e coberta de moscas, como um Hamlet das trevas. Fica tão pirado que chega a oferecer um drinque pra cabeça!   

Claro que não podemos falar de um filme de Sam, o Sanguinário, sem mencionar as muitas cenas de morte em câmera-lenta.  Vêm de monte, mas, surpreendentemente, a ação no caso desse filme fica em segundo plano. O principal são cenas de Benny vagando pelo deserto, cada vez mais louco, em parte prevendo o que Mel Gibson faria em Mad Max, cinco anos mais tarde e Tom Jane em O Justiceiro, de 2004.

Apesar de ter passado batido pelos cinemas e sequer ter sonhado com um Oscar, com o passar dos anos o filme ganhou status de cult, Tendo inspirado trabalhos de Frank Miller, Rodriguez, Tarantino e muitos outros cineastas independentes. É uma obra tão influente que, em 2005, o ator Tommy Lee Jones dirigiu e estrelou um quase remake chamado Três Funerais de Melquiades Estrada, com quase o mesmo roteiro e as mesmas localizações.

Brutal, insano, nostálgico, melancólico e anarquista. Assim são filme e diretor.

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3 Respostas

  1. Muito boa essa sua análise do filme. Tem frases cruas que, mesmo dentro do tema dramático, nos levam a um riso,mesmo que nervoso.

  2. Muito bom o texto. Sou um fã nostálgico dos filmes de Peckinpah, o mais visceral diretor que já passou (e não ficou) por Hollywood. Perto dele, Tarantino & friends são um bando de coroinhas. A ligação bem humorada com o Hamlet ficou legal. Aos adjetivos finais atribuídos ao filme e diretor, só acrescentaria (de modo não muito original, mas merecido) genial. Deu a maior vontade de rever o filme…

  3. Conheço quase nada do Peckinpah…

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