Top Gear da vida real


Os videogames mentiram pra mim. Passei a vida inteira sendo condicionado a acreditar que bastava pisar fundo e você já era um motorista. Dar com a testa no cimento do fundo do poço dói pra caramba…

Sou um cara que gosta de dar um passo de cada vez. Prometi a mim mesmo que primeiro tiraria a carteira de motorista, depois me preocuparia em arrumar um emprego e sair da casa dos pais, não importa o tempo que levasse, tanto que continuo desempregado até hoje, mas minha integridade continua intacta. A maldita carteira é, para mim, uma questão de honra! Minhas idas e voltas da auto – escola começaram em 2002. Na época, eu ainda era um moleque incontrolável, que não conseguia ficar sentado nem por 5 minutos. Por esse motivo, fui reprovado no meu primeiro teste psicotécnico, e por uma tal de “introspecção”, que eu nunca havia ouvido falar. Depois da terceira reprovação, eles me indicaram uma psicóloga.

E lá se foram seis anos de análise e conselhos, até que eu finalmente consegui juntar coragem para voltar ao teste dos risquinhos, que pega quase todo mundo. Dessa vez eu passei, foi uma festa! Principalmente porque… Não teve nenhum jogo de risca-rabisca.☺Cheguei em casa cabisbaixo dizendo com o tom de voz mais triste do mundo “Sinto muito, fiz tudo ao meu alcance… E PASSEI!” Pai e mãe pularam de alegria. Mais uma etapa havia ficado para trás, mas agora, precisava voltar à auto-escola.

Porém, cometi meu erro mais comum quando as coisas começam a se acertar para mim: Excesso de auto-confiança. Faltando pouco mais de um fim de semana para a prova de legislação, estava com o ego até a testa, achando que ia rapelar a tal da prova sem nem suar. Mas naquela sexta-feira a auto-escola estava passando as tradicionais provas simuladas preparatórias, e eu inventei fazer. Menino, pra quê? O pavor tomou conta de mim ao ver que só havia feito 12 pontos em 30! Seu merda! Isso é tudo que tu consegue fazer, espertalhão?

Não deu outra: Com a ajuda dos indispensáveis remedinhos tarja preta, passei o sábado e o domingo deitado no sofá da sala devorando aquele livretinho maldito de legislação, sem levantar nem pra comer ou tomar banho – A mancha de gordura no estofado permanece lá como prova. Batalhando feito Ayrton Senna na última volta, fiz a prova na segunda-feira e passei de raspão. Fiz 21 pontos em 30. Comigo, as provas sempre são resolvidas assim, na corda-bamba. Mais festa!

Aí veio a parte mais divertida de todas: Mãos ao volante e pé na tábua! Tão grande como meus dotes artísticos é minha capacidade de causar traumas nas pessoas. A maioria precisa de no máximo umas 20 aulas de rua para ganhar jogo de cintura ao volante e conquistar a tão sonhada carteira. Well, precisei de quase 60 aulas, três instrutores, três carros diferentes e continuo sem saber dirigir.

Aprendi que dirijo exatamente como vivo: Em completo abandono. Não consigo prestar atenção à sinalização, aos retrovisores, à troca de marcha, ao acelerador e ao volante ao mesmo tempo. Sempre tive problemas de coordenação motora, mas nunca esperei ter-los ao conduzir um motor. Mesmo assim, surpreendentemente conseguia fazer até bem a liçãozinha que costuma pegar todo aspirante a condutor: A tal da baliza. Pra mim foi como passear no parque.

Aí, veio a prova de rua… A hora de arrancar a Excalibur da pedra. Eu estava praticamente cuspindo o aparelho digestivo completo de tão nervoso, aí meu avaliador me chamou. Minha vida toda estava em jogo, todo meu destino depositado naquele volante. Como é que ALGUÉM espera fazer algo que preste com toda essa pressão psicológica? E, para coroar, ele ainda esperava que eu mostrasse minhas habilidades de “grande motorista” em SÓ 10 MINUTOS?! Que diabos é isso? Não teve jeito. Voltei pra casa com o rabo entre as pernas e chorei todo o fim de semana.

Mas sempre há esperança, Sr. Frodo! Lá na auto-escola, me disseram que bastava eu conseguir um advogado e ele me prepararia uma papelada para que eu pudesse repetir o miserável exame psico-técnico e ir direto repetir a prova de legislação.
O ruim é que tive de voltar para os exames de risca-rabisca… Aí não tem orobó que agüente! Depois de falhar pela segunda vez no “mardito”, a psicóloga do ESMEP me encaminhou para um psiquiatra. Mais um pro currículo…

            Como podem ver, quanto ao volante, não sou um tigre, não dou passos felinos. Sou uma baleia que se move devagar, mas com firmeza. Mas toda maisena tem seu dia de mingau. Cedo ou tarde, vou estar a bordo de meu Diplomata prateado 1987, dirigindo pelo deserto e ouvindo blues.

2 Respostas

  1. Como diria a minha mãe diante de um projeto inalcansável, ou uma barreira quase instransponível: “Está mais difícil do que parir uma jaca”.

  2. Bom…difícil é…mas não é impossível.
    Eu não consigo me ver dirigindo, mas um dia
    quem sabe…
    Avante!

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