Um dia como outro qualquer


Não sei o que deu em mim. Outro dia acordei com vontade de tocar fogo em tudo. Aquele papo de correção política, jogar de acordo com o livro e dar exemplo pra sair bonito na fita de repente parou de fazer sentido. Quer saber? Que todos vão tomar naquele lugar! Eu quero é viver!- pensei.

Assim que acordei, espreguicei com os braços tão esticados que acabei dando, sem querer, um tapa na cara da minha mulher. E antes que ela viesse com o dedo no meu nariz pra reclamar, soltei um tremendo peidão por debaixo da coberta. Isso a calou na mesma hora, e olha que ela nem havia dito uma única palavra ainda. Saí da cama coçando o saco e a bunda, abaixei o short do pijama e obrei com a porta aberta. Aquela buchada com farofa de miúdos do jantar ia ser barra para exorcizar. Ela vem e bate forte a porta do banheiro, indignada com meu chauvinismo. Não tiro sua razão.

No café da manhã, apanhei toda aquela capa de bacon que havia comprado pra feijoada do fim de semana e meti na caçarola, com uma caixa de ovos e um pote de manteiga da roça, daquelas que, de tão gordurosas e amarelas, parecem até um pouco avermelhadas. Apanhei o vidro de pimenta e despejei meio pote em cima daquela omelete dos sonhos de qualquer glutão. O cheiro da fritura foi tão forte que empesteou a casa toda, fazendo meus filhos acordarem nauseados. Já vinha gastando 40 anos de minha vida me preocupando em comer de maneira saudável, ensinando os pirralhos a fazerem o mesmo, mas hoje não queria saber dessa frescura toda. Só pensava em me divertir. E para lavar a gordura, misturei o café solúvel com uma xícara de óleo velho. Um banquete digno de um rei!

Coloquei a camisa social de sempre para fora da calça, uma gravata amarela de bolinhas pretas – que, nem preciso dizer, destoava do resto da roupa – e chinelão de dedo. Foi meu traje para ir trabalhar. Arrebentei a vidraça do meu Gol quadrado azul e entrei pela janela. Voei pela pista sempre na contra-mão, pelo menos com a quantidade de vôo que um Gol quadrado permite. Biquei todos os sinais vermelhos, fiz crianças, guardas de trânsito e idosos com pavor subirem nos postes. Chegando ao trabalho, estacionei na vaga de deficientes físicos e apalpei a bunda da secretária. Assim que meu chefe veio tirar satisfações, arrotei e peidei na frente dele, entrando em minha sala. Não sei o que se passou pela cabeça dele, mas continuou ali, imóvel diante da minha porta por quase dois minutos.

Passei o dia inteiro mandando SMSs de sacanagem e piadinhas chulas para meus colegas de trabalho e tratando os clientes da pior forma possível. Isso porque de cortesia e compreensão às vezes dá nos calos. Quando a maldita impressora encrencou na minha vez de usar, nem pensei duas vezes. Arranquei a maquininha da parede e joguei pela janela, não sem antes xingar Deus e o diabo. Se bem que ela saiu em cima do meu carro, mas paciência.

Minha mulher me passa uma lista de compras por e-mail. Depois de me entupir de torresmo, rabada, churrasco e feijoada no almoço- tudo guarnecido com outro tablete de manteiga e quatro latinhas de Skol – e matar o resto do dia no trabalho jogando paciência e vendo pornografia na internet, fui ao supermercado. Passei mais de 100 itens no caixa e coloquei tudo naquelas sacolinhas de plástico, que todos os ecologistas chatos insistem em dizer que são o maior mal da sociedade. Podem ser, mas sempre preferi sacolas a trazer sacolas “ecológicas” de casa, ou encher o porta-malas ridículo de meu carro com caixas de papelão. De um jeito ou de outro, o mundo vai ser poluído mesmo. A conta deu mais de 200 reais, e paguei tudo em moedinha de 10 centavos, só de sacanagem.  

 

Chegando em casa, lá veio o cachorro atrás de carinho. Logo o expulsei e o tranquei lá fora. Arranquei as roupas suadas ainda na sala e me tranquei no banheiro para me exercitar com a revista Playboy que comprei no supermercado. Na hora do jantar, falei com a boca cheia, passei pito em minha esposa e nos filhos, e ainda apaguei o cigarro no purê de batata. Passei o resto da noite esparramado no sofá, tomando cerveja e vendo TV com a mão dentro da braguilha.  

No mais, uma experiência libertadora, que me divertiu. Ainda não me decidi se farei tudo novamente.

2 Respostas

  1. Dificilmente passaria de ficção, embora conheça preciosidades ditas humanas que são bem capazes de agir dessa forma. Desacredito que manteria casamento e emprego, mas, contraditoriamnete, a gordura ingerida em toneladas desopilou o fígado pela importância da ação libertadora.

  2. Mais quebra de rotina, impossível!

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