As pancadas que a vida me dá…


O mundo é uma selva. Custa-me a acreditar, mas em Agosto fez um ano e meio que eu resolvi ir à luta. Bom, não “aquele” tipo de luta, pela qual todo ser humano passa do momento que sai do útero ao momento que o destino fecha nossos olhos. Mas do tipo de luta que só os playboyzinhos gostam, para sentirem-se mais “viris” e “poderosos”.

Escolas são verdadeiros zoológicos de personalidades… Desde pequeno, eu sempre fui o mais fracote, magricela e saco de pancada de qualquer sala em que “estudei”. Todos os tradicionais valentões das classes viam em mim um alvo perfeito para suas pilantragens, piadas e reafirmações vazias de masculinidade. Aos cinco, meus pais tentaram me colocar na aula de Judô do colégio, pra ver se eu parava de voltar pra casa parecendo, nas palavras de Mel Gibson, “uma abóbora azul”. Mas, como eu era a face da inquietude na época, sequer conseguia ficar sentado ouvindo o instrutor, que também não tinha a menor paciência em lidar comigo. Na época, ninguém fazia a menor idéia do que era hiperatividade, tampouco tinha paciência para lidar com um hiperativo. Assim, fui desde cedo tratado como maluco, doido, epilético e toda sorte de adjetivos desabonadores que já contei aqui. Isso foi um tormento quando passei para o secundário, pois minha mãe não tinha contato com a nova leva de professores, que não sabiam como eu me comportava. Logo, também começaram a achar que eu era doido, mas tentavam fazer com que eu estudasse mesmo assim.

Aos 14 anos, resolvi mudar a situação. Entrei na academia em 1998 pela primeira vez. Ali, no meio dos ferros, distensões e câimbras, fui recobrando minha virilidade há muito adormecida. A última vez que um colega da minha turma original tentou me importunar foi na 8ª série. Eu, que sempre aceitava as provocações “numa boa”, fiquei tão furioso com aquele lá que levantei da carteira e desci três tapões bem dados nas costas dele. As colegas ficaram horrorizadas, a professora então… Fui pra sala de castigo com o nariz sangrando do troco do colega, mas, pelo menos lá, ninguém nunca mais me incomodou. Mas o meu primeiro namoro com a musculação durou pouco. Depois de seis meses puxando ferro aquilo começou a ficar muito monótono e me defenestrei da academia. Mas aquelas paredes e aparelhos descascados ainda me veriam muitas vezes…

Em 1999, resolvi me arriscar na capoeira. Sempre fui fã de filmes de luta e, principalmente, do personagem Eddy Gordo, da série de jogos Tekken. Pensava que, se ele conseguia imitar um sapo alegre com aquela naturalidade toda, eu também conseguiria. Precisei abaixar a cabeça e pedir as contas depois de três meses de aula. Era trabalhoso, cansativo, e me deixava todo estropiado. Certas coisas a gente só pode invejar nas pessoas, e aqueles saltos e danças pra mim continuam sendo duas delas. Bem mais tarde, quando já estava na faculdade de turismo, resolvi voltar à academia. Dessa vez pra ficar. Ainda reservo algum preconceito quanto à musculação, pois tem quem diga que quem gosta de cultivar o corpo é porque morre de vontade de comer a si mesmo, mas adoro ver o quanto meu mirrado e esturricado corpo evoluiu nos últimos sete anos. Agora mal dá pra abraçar meu braço inteiro com a palma da mão.

Mas se por um lado a fraqueza foi embora, a ingenuidade continuou. Achava que bastava ter um corpão pra conseguir me safar de condições adversas. Em 2007, quando voltava pra casa da faculdade – à noite e a pé, fui abordado por três malacaus na esquina de minha casa. “Passa relógio, celular, cartão, dinheiro, etc.”, frase de bandidinho pé-sujo patenteada. Claro que, todo cheio de mim, me neguei a dar. Até tentei segurar o braço de um. Tudo que consigo me lembrar foi de ter acordado minutos mais tarde com o nariz e a boca sangrando, tonto e com o rosto parecendo um chiclete mascado. Fiquei dias com o olho roxo e ainda não consigo sentir os dentes da frente, sem falar no orgulho ferido.

Por isso resolvi dar a cara à tapa novamente no ano passado e entrei na aula de muay-thai, o boxe tailandês. Já sou até habilidoso em socar e chutar, mas acho que nunca vou conseguir subir num tatame e distribuir sopapos em alguém. Por causa da minha criação pacífica, nunca entrei em contato com meu “lado selvagem”. Pra ser lutador, é de se supor que eu precise QUERER, mais que qualquer coisa no mundo, marretar a cara do meu adversário e fazê-lo lamber a lona. Mas o que foi que esse cara me fez pra eu ter vontade de fazer uma plástica no nariz dele? E fazer isso pra conseguir o quê? Um cinturão de campeão?

Agora, se quem subisse no tatame contra mim fossem os ladrões que me esculacharam- e não duvido da possibilidade de estupro, a coisa mudaria de figura…

 

4 Respostas

  1. Eu só vim a me sentir vítima de preconceito,na fase
    da adolescência em uma escola particular.
    A professora fazia questão de separar a turma entre
    bolsistas e pagantes.
    Na verdade caguei pra ela, se eu era bolsista numa escola particular, tinha meus méritos.
    Mas sei que isso nem se compara ao que você passou.
    Abraços

  2. A força física é apenas uma das forças existentes. As maiores construções e destruições nem sempre são causadas por ela.

  3. Que saga hein?
    Isso dava um filme de artes marciais!!!
    AHAHAHA – Brincando!
    No mais é isso ai mesmo…como diria um velho conhecido, “A vida te dá um soco e a gente tem sempre que dar o troco!!”
    Mas nesse caso, é muito difícil ser sábio o tempo todo…realmente em situações extremas a gente coloca nossas reações bem mais de acordo com a verve do que com o pensamento.

    Valeus!!

  4. Maldito Bullying… Atire a primeira pedra quem nunca foi vítma de agressão na escola. Seja física ou verbal.

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