A coisa vai esquentar…


Pode ser que tenha a ver com a curiosidade cabível a toda criança hiperativa, mas o fogo sempre me fascinou. Quente, vibrante, imprevisível… Quando era pequeno, sempre que alguém procurava uma caixa de fósforos, eles estavam todos riscados, como naquela clássica piada de português. Quando comprava traques, gostava de colocar fogo na caixinha e assistir a todos estourando ou mascando ao mesmo tempo. Nos churrascos de domingo eu não desgrudava da churrasqueira, só pra sentir o cheiro de carvão queimando. Até hoje, quando me aventuro na cozinha e por ventura algum de meus experimentos fica incomível de tão queimado, sinto certo prazer masoquista.

Mas, por ironia do destino, acabei fazendo do trabalho de evitar o fogo meu ganha-pão.

Vai fazer cinco anos que não tenho emprego formal, atuo meio que como um Sancho Pança pro meu pai, um dos engenheiros mais requisitados da cidade- o que não quer dizer que seja rico. Ele se especializou em projetar sistemas de prevenção contra incêndios e o pânico. Sabem aquelas plaquinhas escritas SAÍDA, ou com bonequinhos subindo e descendo escadas, e aquele extintor de incêndio que tapa sua visão no estacionamento do Shopping Center? Tudo obra nossa. Desde mais moço brinco com ele que o trabalho dele é prever as piores catástrofes possíveis, o que não me impediu de ajudar a fazer esses projetos no computador, com remuneração que muito funcionário público seria capaz de matar a mãe pra conseguir.

Até considero louvável o trabalho que fazemos, apesar de não considerar lá muito útil. Imaginemos que você está num prédio em chamas, no último andar, com fumaça saindo por cada fresta visível. Ali, deitado no chão no meio do fumacê, desesperado e com adrenalina a mil, você teria saco pra observar uma plaquinha no topo de uma porta de aço, ou para quebrar uma caixinha de vidro de uns 15 centímetros e acionar um alarme que provavelmente nunca foi usado e talvez seja preciso a força de um gorila pra vencer sua ferrugem? Lógico que não! No meio do fogo, até os bombeiros chegarem pra pôr tudo em ordem, é cada um por si.

Mesmo assim, às vezes nos aparecem projetos no mínimo curiosos. Recentemente recebemos a missão de projetar um sistema de incêndio para uma ACADEMIA DE NATAÇÃO! Pode? Colocar extintores num lugar CHEIO D’ÁGUA! De que será que o dono tem medo? De a academia pegar fogo e a água das piscinas simplesmente evaporar toda por causa do incêndio? Qualquer coisa bastaria a turma se atirar na piscina ou encher uns baldes.

E os incontáveis retornos de projetos? Não que nós sejamos incompetentes, afinal pai ainda é o engenheiro civil mais famoso da cidade, mas, talvez por pressa de ver a cor do dinheiro, a gente já deixou passar muita coisa faltando ou sobrando dados. Mas a maioria das devoluções é por conta de reclamações simplesmente absurdas. Por exemplo, já devolveram uma relação de materiais simplesmente porque não sabiam o que era uma arandela, pode? Dúvida essa que pai, com todo o altruísmo e ironia a que lhe cabem, fez o favor de responder com uma lauda de três páginas e ainda com um verbete no Aurélio.

Uma resposta

  1. Caso o prédio pegue fogo, é melhor ter os sprinklers, os extintores, a rota de fuga, e a porta corta fogo, que eu sei que você sabe demais o que significam. No setor de prevenção de incêndio, o seu pai é mesmo muito conhecido, pois trabalha nisso há muitos anos. Noutros aspectos você exagerou um pouco.
    Como sempre, ótimo texto. Humor chamuscado, que tem tudo a ver com incêndio.

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