Anedotas de viúva



Recentemente, buscando aumentar meus conhecimentos televisivos – posto que ainda não tenho nada melhor pra fazer – adquiri a clássica coleção de livretos Grandes Novelas, adaptações dos folhetins globais encabeçadas pelo historiador Mauro Andrade. A grande maioria são adaptações, esculpidas em carrara, das obras originais, já quanto a Selva de Pedra e Pecado Capital, obras primas de Janete Clair, na falta de uma palavra melhor, o historiador as estuprou, misturando elementos da era moderna com coisas que só podiam existir na década de 70. Por meio dessa série me fascinei com o falso mito do santeiro que supostamente morreu como um mártir defendendo a igreja de uma cidadezinha e por pouco não foi canonizado.
O ano era 1975. Seria um ano glorioso para o imortal Dias Gomes, afinal ele estaria estreando um folhetim num horário que não fosse o das 10 da noite, representando maior visibilidade para sua obra. A Fabulosa Estória de Roque Santeiro e Sua Fogosa Viúva, A Que Foi Sem Nunca Ter Sido foi a escolha do velho mestre para perder a virgindade das 8 da noite. Dirigida pela múmia global Daniel Filho, a produção seguia com a “mulésta” dos cachorro doido, como diriam os moradores da cidadezinha de Asa Branca. O dia da estréia se aproximava e já haviam sido gravados mais de 30 capítulos.
Eis que a bomba explodiu. O regime militar descobriu via grampo telefônico que a estória de Roque Santeiro era na verdade uma versão disfarçada de uma peça de Dias Gomes chamada O Berço do Herói, escrita e censurada em 1965 por seu teor, segundo a Censura, “subversivo”. O país ficou chocado quando, em lugar dela, foi ao ar um compacto de Selva de Pedra.
Às vezes a expectativa por uma coisa gera tamanho bafafá que quando tal coisa finalmente chega às nossas mãos, mesmo que o resultado final não seja aquilo que se esperava, ninguém ousa falar mal dela, e continua popular e muito recordada por muitos e muitos anos adiante. E quando a espera dura 10 misteriosos anos, aí não tem censurado que agüente! E foi justamente o fator curiosidade o que determinou o sucesso canibal da novela quando enfim pôde estrear. Nos meses em que ficou no ar, não houve programa concorrente que conseguisse fazer frente à malandragem de Roque, aos barracos de Porcina e à truculência de Sinhozinho Malta.
Quanto à trama, que eu duvido que exista algum brasileiro que não conheça mesmo sem ter visto um único capítulo, tenho umas coisinhas a considerar. A começar pelo “grande mistério” que foi arrastado até o último capítulo: Quem era o famigerado lobisomem de Asa Branca, que perseguia as jovens do lugarejo – as mui escassas que existiam…- em noites de lua cheia? Desde que a novela começou, todos do outro lado da telinha já sabiam que o sinistro Professor Astromar era o lycan da vez. Não restava dúvida disso pra ninguém, exceto pelos asabranquenses, apesar de estar praticamente tatuado na testa dele “EU SOU O LOBISOMEM DE ASA BRANCA!” Quem de nós não queria que o dito cujo fosse qualquer um, menos o sósia do mordomo da Família Addams? Meu, até se o próprio Roque se revelasse um lobisomem na última cena teria sido mais satisfatório.
O ponto alto das últimas badaladas da trama foi a morte do ganancioso Zé das Medalhas, que literalmente se sufocou em seu próprio serviço, nadando num galpão cheio de medalhinhas até o teto. Imagina o susto que o povo deve ter tido ao abrir a porta da loja no dia seguinte! Bom, pelo menos deve ter sido moleza financiar o funeral de Seu Zé…

Tão grande quanto o sucesso da novela é o mito envolvendo seu feitio. Considerada por muitos a obra prima de Gomes, a maioria das pessoas desconhece que, na verdade, ele só havia escrito a novela até o momento em que Roque retorna à Asa Branca, lá em 1975 , por volta do capítulo 40. A partir dele, quem assumiu o texto foram Aguinaldo Silva e Marcílio Moraes, com o velho mestre apenas acompanhando de longe a autoria. Essa mudança fica gradativamente mais visível conforme os capítulos se desenrolam. Os noveleiros de plantão já sabem o que esperar do “Guina”, devido à sua paixão assumida pelo jeca, pelo humor escrachado e por mulheres barraqueiras. E foi exatamente isso que recebemos durante sua gestão do mega-sucesso, em detrimento do realismo de Gomes. Aí veio uma das maiores traições da história da teledramaturgia. Aguinaldo já vinha maquinando a história para Roque e Porcina terminarem a novela juntos, pois ela havia brigado com Malta e o abandonado. Provavelmente Dias Gomes havia parado de assistir a novela, pois na reta final ele pediu para escrever os últimos capítulos e, para espanto do povão, a viúva o perdoou no instante em que fugia da cidade com Roque, sem nenhum motivo aparente, e ficou em Asa Branca com o coronel bigodudo, enquanto o “santo homem” saía da cidade do mesmo jeito que entrou. Tava certo ou tava errado?

Uma resposta

  1. Quando a novela Roque Santeiro explodia em sucesso, você tinha dois anos e a assitia junto comigo. Prestava atenção e repetia os bordões de Sinhozinho Malta, referido pelos opositores como “Caracará Sanguinolento”, e outros menos simpáticos. Como mãe coruja, avalio sua análise como quase tão boa quanto foi a novela.

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