Emoções do outro mundo


 

Todo mundo tem aquele pequeno segredo, aquela coisinha que parece inofensiva para a maioria das pessoas, mas, que em sua cabeça, representa medo, horror, pavor e noites mal dormidas. Os traumas são  a expressão mais visceral de nossa humanidade, podendo se manifestar de diversas formas.
Morrerei sem ter conseguido entender muitas coisas a respeito da humanidade. Uma delas é como uma criança poderia ser capaz de idolatrar um ser monstruoso como o Fofão, e ainda pior, comprar o seu famigerado boneco e colocar na estante do quarto. O boneco do Fofão, por sinal, sempre foi o grande campeão de boatos. Crianças arrancavam sua cabeça pra ver se era verdade que havia uma faca e velas de magia negra dentro dele, e essa história foi tão forte que algumas mães chegavam a queimar os “inocentes” brinquedos. Outra boneca inspirada por celebridades foi a da Xuxa. Como ela era maior que a maioria das bonecas (aproximadamente 1,20m) os irmãos mais fanfarrões incutiam na cabeça das irmãzinhas que ela criava vida de madrugada e massacrava suas donas com requintes de crueldade, como o Brinquedo Assassino.  Recentemente meu pai, um homem aparentemente intrépido, confessou que morria de medo dos personagens monstruosos de “O Mágico de Oz”. Tenho certeza que não era o único… E como não mencionar a menina de “O Exorcista” ou a aterradora Zebrinha do Fantástico? E, é lógico, a pessoa que inventou que palhaços eram muito divertidos só podia ter um parafuso a menos. Eles são todos monstruosos, bizarros, grotescos!
Agora, passemos ao meu maior trauma. Eu tinha cinco anos quando ele surgiu. Três letras que me fariam dormir com uma arma embaixo do travesseiro por quase 20 anos. NEB… Esse nome ainda me traz calafrios. Tratava-se de um boneco extra-terrestre que mais parecia um cruzamento de Baby da Silva Sauro e Frankenstein. Verde, todo costurado, com um rabo, mãos sem dedos e olhos imensos, que olhavam dentro de minha alma. Parece algo corriqueiro, não é? Pois segurem-se!
“Vocë tem pulso forte? Tem nervos de aço, estômago de avestruz?” Obviamente eu não tinha… Até hoje me lembro de cada detalhe do comercial. Tocava aquela música-tema de “2001: Uma Odisseia no Espaço” e o etêzinho caía de uma montanha. As crianças o pegavam e começavam a literalmente fazer sua autópsia, jorrando um sangue amarelo gosmento, cheio de veias, artérias e tudo o que se espera achar num corpo. Tudo MESMO! As crianças descreviam suas tripas, seu estômago, seus dois corações, até seu cérebro! E, quando esse show de horrores em forma de comercial de brinquedo acabava, elas devolviam tudo pra dentro dele e costuravam a barriga, como se não tivesse acontecido nada, e ainda o levavam para assistir TV ao seu lado. É mole?
Nem preciso dizer o impacto que esse bonequinho teve em minha psique… Era a propaganda passar, sempre na TVS, e eu saía correndo pra me trancar no quarto.  Todos os meus primos sabiam do pavor que eu tinha dele e tiravam sarro de mim, e às vezes até minhas babás e meu pai.
Mas o tempo foi passando e meio que fui esquecendo do NEB. Até que, aos nove anos, quando eu era levado para a aula de natação, esbarrei com um deles escancarado, jogado no lixo. Quem me levava não entendeu nada, mas nunca me esqueceria daqueles olhões horrorosos… Por via das dúvidas, nunca mais passei por aquele lado da rua.
Vários anos mais tarde, nos dias atuais, quando pesquisava novos assuntos para meus textos, eis que me deparo com a pestinha num site de recordações! Foi como nos finais dos filmes de Sergio Leone. Olho pra ele, ele olha pra mim com aqueles olhos gigantescos, estudo seu corpo todo costurado, sua aparência escalafobética… Continua tão feio como antigamente, mas agora tenho apenas certo nojo dele.  Mesmo que eu já saiba que seus órgãos eram de plástico e espuma e seu sangue preguento não passava de Geleinha amarela, tenho até cogitado comprar um deles usado na internet para subjugar de vez meu maior medo.

3 Respostas

  1. O meu pavor/fobia, para mim, plenamente justificado é Regan, a personagem central do filme “O Exorcista”. Ainda hoje, passados mais de 37 anos, ainda sinto desconforto ao lembrar-me dela.

  2. O comentário acima foi meu, Mara Narciso. Isso que dá dividir, mesmo que por poucos dias um computador.

  3. Não me lembro de ter esse tipo de medo, fui muito
    rueira na minha infância e a televisão estava escangalhada.
    Meus medos eram bem palpáveis como por exemplo me olhar
    no espelho à noite, tudo isso devido a um fato que minha mãe nos contava sempre, eu era menina ainda, ao se pentear em frente ao espelho ela viu atrás de si um homem sorrindo escancaradamente, detalhe, ela estava sozinha. Sinistro né!
    Ahhhhhhhhhhhhhhh! me lembrei de uma coisa inusitada!
    Quando criança ouvíamos muito uma rádio e sempre que dava 6 horas da tarde tocavam a Ave Maria, eu tinha pavor daquilo, enfiava os dedos nos ouvidos até a musiquinha acabar.
    Abração

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