É melhor e não faz mal


 No passado, acreditavam que, se o produto fosse bom, ele era o seu próprio promotor. No mínimo colocariam a foto do produto em cartazes e outras mídias impressas e ele se vendia sozinho, sem necessidade de se pensar em grandes campanhas. Alguns séculos adiante, com o advento da TV e com o retorno dos jovens soldados da 2ª Guerra Mundial com seus gordos soldos, houve a necessidade de mudar a linguagem publicitária. Naquele tempo os comerciais eram no melhor estilo Polishop, só que rodados ao vivo durante os programas, prática que permanece viva até hoje nos programas de auditório.

E para catequizar o consumidor, todo produto precisava ter, além de anunciantes lindas e loiras, um ingrediente milagroso, um “algo mais” que o colocasse adiante de todos os outros. Bastava dizer coisas como “Mortadela Colonial Swift é a única preparada em forno a lenha”, “Sonrisal é o único que combina dois antiácidos e um analgésico”,“dentrifrício ‘em fita’ Signal é o único que contém hexaclorofeno nas listras vermelhas” ou “Cotonetes Johnson & Johnson’s são os únicos que não soltam da haste” e era só correr pro abraço.

E, se não tivesse nada que destacasse seu produto dos outros, era só mentir descaradamente. Acreditem se quiserem, mas nos anos 50, Coca-cola fazia bem, aliás, o lema deles era “Isso faz um beeeeeem…”. Yeah, right. Um líquido que serve até pra reduzir o enferrujado de lataria e clarear o fundo da privada deve fazer um bem danado… Mais adiante o lema do refrigerante se tornou “Emoção pra valer”. Quer dizer, bastava um golinho e todo mundo ficava emocionado.

Sabiam que os sorvetes Kibon já custaram 30 centavos no tempo de seus avós? E também eram preparados com “leite integral e ovos frescos da granja”? Com razão o slogan da empresa por muitos anos foi “É gostoso e faz bem”. E engorda pra danar… Você usava tênis Montreal “Porque você é jovem” e sabia que “Já é hora de dormir” porque o comercial dos cobertores Parahyba dizia que sim, com aqueles trigêmeos da animação que iam pra cama e apagavam a vela?  

“Bom dia com Kellogg’s!” À mesa do café, sempre havia uma lata de Toddy, que “é gostoso, fortifica e é econômico”, trazendo “força, vigor, energia e rrrrrrrrrrapidez mental”. Mas se você fosse muito frutinha, havia o Nescau, que era “mais leve, saboroso e gostoso como uma tarde no circo”, que mais adiante, para combater as vitaminas milagrosas do concorrente, precisou trazer “energia que dá gosto”. Para dar uma marombada na gororoba, basta uma colher de leite em pó Sol. “Integral, engorda e fortalece. Desnatado, fortalece sem engordar”. E ficava na dúvida se os deliciosos e insuperáveis biscoitos de chocolate Tostines “Vendiam mais porque estavam sempre fresquinhos ou estavam sempre fresquinhos porque vendiam mais”?

 Se o elevador estivesse muito apertado, bastava dar uma borrifada de Rexona embaixo das axilas suadas, afinal, com ele “sempre cabe mais um”. Seu pimpolho já deve ter espalhado pela casa toda recadinhos de “Não esqueça minha Caloi”, isso numa época que uma bicicleta era mais importante pras crianças que um Playstation 3. Se eles te torrassem pra valer a paciência, bastava seguir a receita da vovó: “Tomou Doril, a dor sumiu”.

Aquele Prestobarba duro que já vinha praticamente cego da fábrica podia até deixar seu rosto cheio de cortes e hematomas, mas todo mundo sabia que “A primeira faz tchan, a segunda faz tchum e tchan-tchan-tchan-tchaaaaaaan!” A propaganda mais famosa do xampu com cheiro de merda Colorama foi feita em 1978 e, de tão marcante, ainda passava na TV Bandeirantes (BAND) no início dos anos 90, com aquela “atriz” de voz esganiçada que dizia “Vocês se lembram da minha voooooz? Continua a mesma. Mas os meus cabelos, quaaaaaanta diferença…”. 

Hoje é uma temeridade, mas quinze anos atrás fumar era o máximo, as propagandas de cigarros pareciam dirigidas por George Lucas, e podia-se fumar nos lugares mais inusitados sem ser repreendido, como no avião ou na sauna. Mas essas delícias assassinas não teriam sido nada sem seus slogans inesquecíveis. “Hollywood, o sucesso”, “Chanceller, o fino que satisfaz”, “Carlton, um raro prazer”, “Derby, o sabor que conquistou o Brasil”,  “Free, alguma coisa a gente tem em comum” e, o mais sensacional de todos os tempos, “FREE, UMA QUESTÃO DE BOM SENSO!”

O inesquecível Chevrolet Opala teria passado batido por quase 25 anos de mercado, se Tônia Carrero e Rivelino não tivessem dito que ele “É sensacional!”. E o Fusca, nosso heróico fusquinha, mesmo com um motor que ia de 0 a 100 em 15 minutos e que dirigíssemos com o nariz praticamente colado no pára-brisa, ainda era “o bom senso em automóvel”.  E se tivesse um automóvel (palavra antiga essa, não?) da Willys e ele encrencasse no meio do caminho, não era problema nenhum, pois “ as peças Willys têm garantia de 6 meses ou por 12.000 km”, e sempre havia um postinho da Esso em qualquer encosta de estrada, e só combustíveis, aditivos e lubrificantes Esso “davam ao seu carro o máximo”.

Aposto que os mais instruídos estão todos chorando agora…

3 Respostas

  1. Maravilhosa captação de reminiscências. Coisas antigas que aconteceram bem antes de você vir ao mundo, mas suas fabulosa garimpagem foi demais! Emocionante.

  2. Fernando, foi uma delícia ler o seu artigo….
    Até parece que vc viveu nessa época!
    Lembro-me muito bem de todas essas “prerrogativas,” que citou.
    Grande garoto!
    Parabéns!
    carmen

  3. Adorei a tua abordagem, coisas das quais eu nem me lembrava
    mais.
    Caprichou na pesquisa! Parabéns Fernando!
    Abração

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