E você é o famoso Kane?


Eu odeio os ricos. Podem me xingar, mas eu os odeio. Soberbos, pretensiosos, preconceituosos, só querem saber de suas posses e de aparecer nas colunas sociais.
OK, eles podem conseguir tudo o que quiserem, a hora que quiserem, e viver no maior luxo, mas, talvez por minha mãe ter sido petista fervorosa em sua juventude, eu tenha aprendido com o tempo a sentir raiva de todo e qualquer mandante. Pra mim, dono de bar já é patrão, já é inimigo de classe, como dizia o Lula.
Mas não nos deixemos enganar, galerinha. Por mais posses e conforto que tenham e possam acumular, no âmbito da alma, os ricos são tão humanos como qualquer um. Por mais que a famosa frase “Dinheiro não traz felicidade” nos pareça ridícula e sem sentido, ela nunca esteve tão verdadeira como nos últimos anos. O problema de ter tudo é que você quer sempre ter cada vez mais, e na busca por encher o seu exterior com coisas cada vez mais extravagantes, o interior acaba ficando cada vez mais vazio. Por isso a gente sempre vê esses ricos e famosos fazendo um monte de besteira.
Porém, como tudo em minha vida é guiado pela ironia, quis o destino que um de meus filmes favoritos fosse sobre um cara que usa nota de dólar para limpar aquele lugar. Aliás, não apenas um de meus filmes favoritos, mas de praticamente todo amante da 7ª arte. Em 1941 Orson Welles, um sujeito de apenas 25 anos, ególatra e de ambição desmedida, que nunca havia colocado as mãos numa câmera, mudou a cara do cinema com uma impressionante saga de dinheiro, poder, solidão e tragédia shakespeariana: “CIDADÃO KANE”.
O personagem-título é uma amálgama de várias personalidades de seu tempo combinadas á do próprio ator/produtor/co-autor/ diretor – Yes, folks. Controle total e absoluto de cada processo envolvendo o feitio da fita. Tendo provavelmente sido a fonte de inspiração de gente finíssima do naipe de Bush, Roberto Marinho e Assis Chateaubriand, logo no lúgubre início presenciamos a morte do protagonista por velhice. Genial, não? A seguir somos brindados com os que são, em minha humilde opinião, os melhores 10 minutos da história do cinema, um cinejornal conta toda a ascensão, o apogeu e a queda meteórica do maior magnata das notícias do início do século passado, Charles Foster Kane. Antes de morrer em seu enorme palácio, ele pronuncia a palavra “Rosebud”, deixando todos os jornalistas do país em polvorosa, tentando descobrir que diabos isso significa. Um investigador jornalístico, Mr. Thompson, é encarregado de entrevistar as pessoas com quem Kane mais conviveu, com o objetivo de descobrir o que é Rosebud. É claro que Welles, esperto como era, não deixaria nenhum dos personagens saber a resposta, por melhor que conhecessem o homem, ou achassem que conheciam. Primeiro somos apresentados às memórias do finado Walter Thatcher, grande nome de Wall Street- que por um acaso é idêntico ao mordomo da Família Adams. Ainda no século XIX, a mãe de Charles, uma senhoria numa remota região do Colorado, recebeu uma mina de ouro aparentemente “rapada” como pagamento de uma dívida. Ao descobrir que a mina valia milhões, ela não tardou a contratar Sr. Thatcher como consultor financeiro e responsável pela educação do filho numa cidade de mais recursos. Por achar que o tutor o havia comprado da mãe como um tipo de escravo, Charles cresceu odiando-o, e o provocava constantemente mesmo quando adulto, já dono do Inquirer, jornal sensacionalista que o tornou rico e famoso.
A seguir, conhecemos o Sancho Pança de Charles, Sr. Bernstein, antigo secretário e baba-ovo dele. Típico arquétipo do judeu fominha, esteve ao seu lado desde o início do Inquirer, e sempre foi grande admirador da sede de poder do antigo patrão, concordando com quase todos os pontos de vista dele.
Até o momento, conhecemos apenas as vitórias e feitos mitológicos de Kane. Mas, num asilo, Mr. Thompson se encontra com Jed Leland, antigo melhor amigo do homem. Os dois se conheceram na faculdade e assumiram juntos o Inquirer, ele como crítico de teatro. Quando já era casado, Charles conheceu e “se apaixonou” pela jovem Susan Alexander, que ele julgava ter potencial para ser cantora de ópera, apesar de todo o país pensar diferente. Ela foi uma das causas dele ter perdido as eleições para governador de Nova York e de seu divórcio de sua esposa, Emily Norton. Sua ganância incontrolável e crescente arrogância lhe custaram a amizade de Leland. Só de pirraça, Charles se casou com Susan e a forçou a seguir uma desastrosa carreira nos palcos. No fim, ele também fica sem Susan, que agora tentava ganhar a vida como dona de um cabaré. Na crise de 1929, Kane perde grande parte de seu patrimônio, vendo-se forçado a voltar a ser pajeado pelo Mr. Thatcher depois de idoso.
A coisa mais importante sobre o filme é que, mesmo depois de chegar ao fim, ainda não temos a menor idéia de quem este homem realmente foi, apenas a visão que cada uma das pessoas com quem se relacionava tinha a seu respeito. A princípio o achamos um demônio aos olhos de seu tutor, depois nos apaixonamos por ele aos olhos de seu puxa-saco oficial, depois compaixão de acordo com a visão de seu melhor amigo, e por fim, medo e pena, com a versão de sua ex-mulher. E, mesmo assim, o filme termina do mesmo jeito como começou, sem ninguém saber absolutamente nada sobre Charles. Esse é o problema de começar uma narrativa pelo fim… Talvez eu escreva um roteiro à la “Memórias póstumas de Brás Cubas”, contando a versão do defunto dos fatos. Mas aí seria como pintar um bigode na Mona Lisa…

… E vocês não pensaram que eu ia entregar o que era
Rosebud, pensaram? Assistam ao filme e descubram, seus preguiçosos!

Uma resposta

  1. Eu sei o que era Rosebud e tive quase certeza que você entregaria. Ainda bem que não o fez. Também gostei muito do Cidadão Kane, embora, por ser contado de trás para frente, seja um verdadeiro porre.

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