Ele-Homem


1981 foi um ano muito importante para o mundo do entretenimento. Neste ano foi lançada uma linha de brinquedos que mudaria a cara da década e se tornaria fonte de inspiração de todos os moleques que nasceram antes de mim: MASTERS OF THE UNIVERSE, ou He-man para os íntimos.A verdadeira origem da franquia permanece um tanto nebulosa até hoje, mas a
história mais comumente aceita é que, em 1982, o filme Conan, O Bárbaro, estrelado pelo fisiculturista com formiguinha nas
calças Arnold Schwarzenegger foi lançado, alcançando um sucesso extraordinário, apesar dos efeitos especiais meio fraquinhos da época e de sua visão um tanto estranha da masculinidade. Reza a lenda que, aproveitando o embalo, a Mattel, uma das maiores fabricantes de brinquedos do mundo, tentou lançar uma linha de brinquedos baseada no herói e no vilão do filme. Tentou,
pois a diretoria da empresa bateu o pé, se fazendo de muito politicamente correta e dizendo que não queria saber de criancinhas brincando com o boneco de um bárbaro assassino e sexualmente ativo como o cimério fodão. Mas a produção já havia
recebido sinal verde e isso traria um prejuízo enorme para a empresa. Então os designers, muito espertinhos, decidiram simplesmente mudar a cabeça, as roupas e as armas dos bonecos e criar uma franquia própria.
Lembrem-se, estamos nos Estados Unidos, berço dos super-heróis, em plena década de 80. E não existia nada mais macho na época que um cara loiro, bronzeado, com músculos até na língua, desfilando por aí com botas e tanguinha felpudas, sem
falar no penteado igual o que o Sting usava na época. Só faltava um bigodão à la Freddie Mercury…
Mas, surpreendentemente, apesar de já existirem os bonecos dele e do Esqueleto, ambos não tiveram uma história oficial até meados de 1983, mesmo que as vendas já fossem consideráveis. Isso foi reparado pela pequena produtora de desenhos
Filmation, que criou a personalidade não apenas dos dois, mas de todo um universo de novos personagens e bonecos de ação, lançando-os numa era que combinava medievalismo com ficção científica e fazendo a guerra de Etérnia estourar nos quatro cantos do mundo por três anos e mais de 100 episódios. Na carona do sucesso de He-man, surgiu toda uma miríade de desenhos animados de ação que durou por toda a década, alguns muito queridos, outros que sumiram tão rápido como apareceram, mas poucos conseguiram enfrentar Príncipe Adam e sua turma de igual para igual.
Confesso a vocês que, quando criança, não dava muita bola para desenhos de ação, com seus roteiros razoavelmente complexos para um moleque hiperativo. Sempre preferi os desenhos mais clássicos, talvez para me distanciar do gosto de todos os meus primos e amigos, que só viam os desenhos da Globo. Até tentei gostar do guardião do castelo de Grayskull como qualquer moleque, mas achava tudo na série muito estranho, mesmo com a idade que tinha. Apesar de ser o, como diria Capitão Nascimento, Sr. Pica das Galáxias, He-man tinha uma personalidade nada norte-americana. Apesar de ter uns 200 quilos de massa muscular e ainda a espada mais poderosa já forjada, o “homem mais poderoso do universo” era incapaz de cortar inimigos com ela. Ele sequer enchia o Esqueleto de porrada, preferindo usar sua força monstruosa para arrebentar obstáculos ou
simplesmente encurralar o inimigo de maneira criativa. E ainda vinha dar conselhos um tanto óbvios à audiência no final de cada aventura, como “escovem
os dentes todos os dias” ou “não atravessem a rua de olhos fechados”. Tamanho bom-mocismo não existe neste e nem em outros mundos. Depois mudávamos de canal e lá estava Jaspion, agindo como um legítimo samurai, empalando e degolando as
desavenças com sua Spadium Laser ou atirando no rosto delas com sua pistolinha.
Isso é que é heroísmo!
A animação era feita a toque de caixa, com muitas cenas reaproveitadas ou grosseiramente alteradas que se repetiam em todos os episódios. As expressões faciais praticamente não mudavam nos personagens quando estavam falando. Mas a coisa que mais me incomodava e ainda incomoda são aqueles efeitos sonoros cômicos, típicos de desenhos animados mais tradicionais, que simplesmente não casavam bem com a ambientação lúgubre de Etérnia. Mesmo assim, a relevância da série é inegável, e continua sendo o desenho animado mais lembrado da “década perdida”. Quem acompanhou, entupiu o guarda-roupa com os brinquedos e pulou festinhas de aniversário ao som da musiquinha gravada pelo Trem da Alegria nunca se esquecerá das longas tardes
que passaram brincando com os bonecos absurdamente desproporcionais.

PELOS PODERES DE VOCÊS SABEM QUEM!

Uma resposta

  1. Está ótima sua análise.

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