Cala a boca e come, menino!


 

Desde que me tenho por gente, a hora de comer sempre foi um martírio para mim. Boa parte da população- E estou sendo até bondoso- faz 3 refeições por dia e já está de bom tamanho. Alguns sequer comem à mesa, estão sempre beliscando alguma coisinha e enchendo o saco dos endocrinologistas com as mesmas perguntas de sempre: “Não entendo porque sou tão gorda, doutor…”, às quais o Capitão Obviossauro Rex sempre tem as mesmas respostas.
Quase todos sentem prazer ao comer, alguns até mais do que o considerado saudável. Mas não eu. Não sei se é por birra, mas nunca senti prazer nenhum ao comer. Lembro-me de quando tinha uns 7 ou 8 anos e pesava quase tanto quanto uma galinha. Esturricado mesmo. Se tomasse uma pancada de vento meu corpo balançava feito um trigal. E olha que todos se esforçavam pra ver se criava juízo. Tentavam me dar biotônico, a garrafada mais famosa do Brasil, pílulas, benzedeira, me levaram até num exorcista pra ver se eu conseguia engordar pelo menos um quilo, mas foi uma jornada daquelas até eu conseguir criar um pouquinho de corpo e juízo.
Atualmente me alimento razoavelmente bem, mas o martírio continua. Geralmente o almoço já está servido há umas três horas e eu teimando em não ir comer logo. Sim, é teima mesmo, porque, cá para nós, nada que pessoas normais comem consegue me atrair para a frente do prato. Não existe alimento mais repulsivo que feijão, com sua aparência pantanosa, cheiro forte, e o caldo que me dá nojo. Com arroz até que não tenho implicância, mas depende de quem faz. Soltinho, com farofa e churrasco é irresistível, mas o daqui… A impressão que dá é que seria possível até rebocar as paredes com ele.
Tirando comida italiana, qualquer outra comida afogada em molho ou caldo me causa nojo, por isso só como carnes fritas ou assadas, e com farinha pra abafar a gordura. Quanto à salada sou como a maioria dos brasileiros e americanos: Mantenho distância. A maioria dos legumes e verduras tem gosto de água, só que pior. No máximo, quando estou desesperado de fome, apanho um montinho de alface, tomate, cebola e cenoura ralada, mas não passa disso.
Com razão eu parecia uma vareta de virar tripa quando moleque…
Ainda vai aparecer algum cientista aí para provar que nosso amado arroz com feijão não tem nenhum valor nutricional. O ovo, que há bem pouco tempo vinha com uma plaquinha na caixa escrito em letras garrafais e com uma caveirinha desenhada dizendo MANTENHA DISTÂNCIA, agora foi alçado à categoria dos superalimentos. Provaram que apenas a pele do porco tem gorduras nocivas ao organismo, Provaram, e essa todo mundo já sabia, que o refrigerante diet é um assassino maior que o refri comum. Quem sabe o que mais esses desocupados são capazes de descobrir?
Pensando bem… Eureca! Acabei de matar a charada pra acabar com a fome do mundo!
Hoje em dia podemos entrar numa farmácia e achar todas as tais vitaminas que encontramos nos alimentos em forma de pílulas. Creio eu que nosso corpo não é um sistema tão inteligente a ponto de saber a diferença entre comida e vitaminas, logo era tudo uma questão de revolucionar a alimentação. Já que podemos encontrar vitaminas A,C,D,E, K, o complexo B, minerais, sais e todo o resto num vidrinho, bastaria tomarmos tudo isso durante as refeições e comer alguma coisa genérica para fazer o quilo, tipo um biscoito ou pão neutro, com a contagem cientificamente ideal de calorias e gorduras para todo ser humano, assim você não conseguiria se tornar um obeso mórbido nem se fizesse todo o esforço do mundo. Nem seria mais necessário colocar alertas nos pacotes de NÃO CONTÉM GLÚTEN ou LIVRE DE GORDURA TRANS, como se pessoas normais se importassem com essas coisas…
Do jeito que atualmente não temos tempo mais nem pra sentar à mesa, e que familiares em geral não se suportam mais, pensem só nos momentos embaraçosos que seriam poupados todos os dias.
A hora do aviãozinho nunca mais seria um tormento para mães e filhos.

3 Respostas

  1. Mas que implicância com o arroz com feijão rapaz!
    Muito divertido seu texto amigo, vc usa e abusa da ironia.
    Parabéns Fernando! Adorei

  2. Já adulto, quase que só comia cinco coisas: Coca-cola, pão, queijo, carne e chocolate. Até batata frita era raridade. E não foi por falta de insistência não. Além de dar o exemplo, era oferecido o que há de melhor em alimentação. Opinião formada é isso daí.

  3. Fernando, parábens!!!

    Não costumo me orientar pelo senso comum, mas aqui caberia muito bem aquela máxima: “Filho de peixe, peixinho é”. Ou seria o inverso? Tudo é possível…Só sei que gostei muito do seu texto, pois suscitou um assunto que faz parte das preocupações atuais, qual seja, a qualidade da alimentação.
    Lendo seu escrito revivi toda a angústia que sentia porque meu filho também praticamente não se alimentava, vivia “a vento” como eu falava e parecia um esqueto ambulante. Lembro que o pediatra falava “deixa chegar a adolescência que você vai pedir para ele parar de comer”, só que ele passou pela famosa adolescência e esse dia não chegou. Agora, depois dos 20 anos é que passou a se alimentar melhor, mas ainda não é qualquer comida que come, tem seus alimentos preferidos, porém não gosta que os repita, pois nesse caso enjoa.

    Marlene

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